segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

FELICIDADE: Homens Precisam Despatriarcalizar-se


6º Domingo no Tempo Comum (IPU CG), Ano A | Dt 30.15-20; Sl 119.1-8; 1 Co 3.1-9; Mt 5.21-37 – Rev. Pedro Lísias – 16/02/2020


FELICIDADE: Homens Precisam Despatriarcalizar-se[1]
fraternidade – sororidade – humilde-honestidade

INTRODUÇÃO
O Evangelho deste 6º domingo no tempo comum é todo um conjunto de desafios. Compreende um mergulho na época de Jesus cuja emergência[2] acontece agora. Por este motivo, cada parte deve ser analisada com interdependência, pois a perícope é um dos blocos que compõem o “sermão do monte”. As partes relacionam-se entre si e com o grande sermão.

DESENVOLVIMENTO
Felizes as pessoas que trabalham pela paz
v.21-26 Apenas não matar dá aval para todo tipo de violência. Jesus ensina a não cometer nem mesmo a menor das violências – ou melhor, não cometer violência alguma. Na Grécia clássica o termo idiota significa aquele que se fecha em si. Só pensa no próprio umbigo. O contrário, o político, se abre para o conjunto, participa da vida da comunidade e se interessa pelo mundo como um todo. Então, o que Jesus quer dizer no verso 22 de Mateus 5 (“E quem chamar o seu irmão de idiota estará em perigo de ir para o fogo do inferno”)?
Numa relação fraterna entende-se que todos cooperam para o bem de todos, com amor recíproco – ação política original. Portanto, chamar seu companheiro de caminhada de idiota é um desejo de ruina da comunidade fraternal. É uma falta grave, pois coloca em dúvida o comprometimento pessoal e a fé do membro fraterno. O ódio, a raiva, o insulto são sentimentos e atitudes contra Deus, pois quem ofertar algo a Deus, tendo o coração cheio de sentimentos violentos, estará ofertando violência a Deus. Pois, ninguém oferta algo sem levar a si próprio ao altar. Jesus se ofertou por inteiro e sem qualquer violência no coração para pagar pela violência cultivada por toda a humanidade. Neste sentido, Jesus teve a iniciativa de buscar a paz ainda que não tivesse culpa alguma em relação às acusações que fizeram contra ele. Quem não tem violência no coração, mas é acusado pelo(a) irmão(ã) de algo que possa ter feito, precisa assumir a iniciativa pela paz e ganhar o(a) irmão(ã) cujo coração é sondado pelo Espírito Santo nesse diálogo de perdão. Desse modo, a oferta é completamente agradável a Deus, pois aí não há ligação alguma com qualquer violência nas relações que temos uns com os outros.

Felizes os homens que têm o coração puro
v.27-30 Quem tem a mínima intenção de objetificar uma mulher faz do próprio coração uma fonte de maldade e desagrado a Deus. Ninguém pode “possuir” ninguém. Tendo em mente que Jesus primeiramente está discutindo a Lei, o adultério, nos termos jurídicos, é uma violação da regra de fidelidade conjugal prevista em contrato. Jesus insiste (instrui) que as pessoas arranquem do coração esse desejo de possessão do outro. Isso é demoníaco, tanto é que Jesus expulsa demônios para que as pessoas vivam plenamente livres, para fazerem escolhas assumindo elas próprias as consequências de suas preferências sem a interferência e controle de terceiros.
Cada um tem competência para eliminar do seu modo de viver aquilo que o aproxima do inferno (da injustiça, da morte) e tornar seu coração puro.
Felizes as pessoas que têm fome e sede de justiça
v.31-32 “Felizes as mulheres...”. Jesus incentiva a sororidade (feminina) e faz com que os homens assumam o peso da Lei a respeito do adultério: antes a mulher era sumariamente culpada. Jesus, no entanto, interpreta a Lei em seu sentido completo, isto é, com justiça prioritária às mulheres. A Lei mantém a mulher como um objeto que, em caso de “devolução” ou “descarte”, deve ser acompanhado da documentação de rejeição no qual constem os termos de desistência da aquisição. Jesus aprofunda na interpretação legal, e vai buscar na origem da Lei algo que se aproxime do direito da mulher.
Mas, ao ler atentamente os versos, é evidente que o Mestre traz à tona a discussão que exige solução urgente: a mulher é livre e ambos devem se respeitar procurando o caminho da paz, apesar das leis humanas. Isso é notório na última frase “E o homem que casar com ela também cometerá adultério”. Esta sentença escancara o sistema patriarcalista-machista. Jesus mostra que a Lei não é perfeita. Ela torna todos os homens arrolados a qualquer situação de adultério. É inescapável. Quer dizer, Jesus informa que, no contexto da Lei, bem ao contrário do que pensam e dizem os homens, a mulher é vítima e não a culpada, principalmente pelo fato de a responsabilidade contratual ser do homem. Como a relação contratual é entre homens, não é a mulher que “leva consigo a marca de um adultério” e sim os contratantes. É a Lei... Jesus dá não apenas a interpretação correta, mas, mostra como é duro o coração das pessoas que preferem a frieza da Lei ao invés de refletir o amor gratuito de Deus nos relacionamentos livres de contratos e punições – que poderiam ser repletos de respeito, alegria e liberdade. Um relacionamento sem ônus, sem danos.

Felizes as pessoas humildes
v.33-37 Talvez haja uma possibilidade de jurar...

“Certa vez, próximo ao meu trabalho, andando na calçada se aproxima um andarilho simpático em minha direção e logo vai dizendo: com licença, eu junto latinhas, mas eu dormi e levaram as latinhas que eu juntei. Eu prestei atenção e já estava entendendo que ele iria me pedir dinheiro (julguei, ainda, que ele estava alcoolizado). Pois ele continuou: você num teria alguma moedinha pra inteirar meu almoço? Eu disse a ele que infelizmente eu não tinha. Ele disparou muito bem-humorado: tem problema não. Eu juro pra você ‘daqui pra trás não bebo mais!’. Demorei alguns segundos para me dar conta do juramento do andarilho. Enquanto ele seguia na outra direção, me pus a rir sozinho ao melhor estilo rachei o bico!”

Nós temos o péssimo e perigoso hábito de jurar ou fazer promessas. A instrução de Jesus de não jurar de jeito nenhum é em razão de que apenas Deus pode garantir 100% que vai cumprir uma promessa. Quando nos comprometemos com uma promessa, como podemos garantir que vamos cumpri-la? Quem jura que vai parar de beber, pode se deparar imediatamente com a tentação de uma pinga ou apenas um copo de cerveja no boteco da esquina ou até mesmo em família, e o juramento é quebrado em apenas um gole. Quem diz “eu juro por Deus que vou mudar” e que não vai mais bater na namorada/companheira/esposa, comete um violento erro. É melhor reconhecer sua fraqueza, sua incapacidade. Tem mais sentido dizer “eu quero respeitar você e parar de ser violento” como um “sim” honesto, que jurar e dar voz ao Maligno.
A humilde-honestidade de um homem o aproxima da sororidade feminina, a qual reivindica respeito, nada mais, nada menos. Não é atoa que Jesus inicia o sermão do monte contrariando a felicidade que o mundo acredita ser ideal, verdadeira.
Depois de um mergulho profundo, o que encontramos na superfície?

CONCLUSÃO
A felicidade só faz morada onde a fidelidade a Deus não está quebrada.
O machismo estrutural (disfarçado, oculto) atravessa boa parte do conteúdo do evangelho de Mt 5.21-37. E essa realidade conjuntural está comprovada, pois Jesus deixa completamente nu o patriarcado presente na Lei pensada e consolidada pelos homens a fim de garantir o controle dos corpos das mulheres (e dos mais fracos na teia social).
A sociedade contemporânea ainda reproduz esse modelo patriarcal, porém, o controle das mentes femininas nunca foi pleno, pois elas, com sororidade compreendida/incentivada por Jesus, marcham em revolução.
Cada homem precisa despatriarcalizar-se para viver uma relação fraterna junto às mulheres, que não pretendem um matriarcado, pois se inspiram no amor de Deus (imerecido e gratuito) revelado em Jesus Cristo, aquele que estimula e incute respeito mútuo e permanente.
A sororidade feminina é sinal do Reino de Deus. É ferramenta fundamental na transformação da sociedade misógina. A cada vez que a sociedade, especialmente os homens, para, ao menos para ouvir as mulheres, o Espírito Santo de Deus sonda todas as pessoas.
Que sejamos humildes como Jesus a fim de por abaixo o patriarcalismo simbólico-estrutural. Quem se abre para as Boas Novas que as mulheres em sororidade anunciam, é certamente feliz!

Amém!



[1] Conferència de Marcela Lagarde y De los Ríos: 'Feminisme i Sororitat' (María Marcela Lagarde y de los Ríos palestra sobre “Feminismo e Sororidade”). Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=6a2GAjfT9Fk&t=3549s>.
[2] Tanto o ato ou efeito de emergir quanto uma situação grave, perigosa, crítica.