quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

A SEM CRASE É PERSONAGEM



Foi a praia
Assistiu a TV

Acém crase é uma carne louca servida à mesa de segunda a sexta em localidades anglo-saxônicas.
Como às vezes não fazem sentido, crases sempre se embolam em metalinguagens e necessariamente implicam metáforas. Anáfora afora, os aforismos dos acrasiamentos são imbricações que seguem o método da dobradiça: são pêndulos horizontais que fecham de um lado para abrirem-se de outro, sublinhando, às maçanetas, buracos em recortes que são, outrossim, receptáculos de chaves. Crases e fechaduras têm tênue ligação.
Essa mimética combinação reflete sua figuração: crases são chaves, e estas, vices às avessas. Ninguém sabe bem o que acontece no escurinho das fechaduras. Mas, de leitura em leitura, de escrita à escrita, as chaves trancam e destrancam metáforas, acentuadas ou não, no breu da imaginação. Ou melhor, esse nobre quarto cômodo cerebral, sem crase está escuro, e depende da chave para abrir-se; após isso, luz! Revolve a imaginação, mente e verdade, como um interruptor irrompido, um mundo lizado, tecidos, meadas de lã, na tinta em que estão mergulhados. Crase à tinta, mais que pinta, um traço inclinado à revolta!
A com crase é um soldadinho revoltado, pois se empunhasse sua espadinha à frente como área, árvore e água, não personificaria tão bem a contradição. Sem crase, assume-se mais original, versátil; simultaneidade torna-se seu forte: como a areia que foi a praia, e agora é integrante de edificações ou barreiras de vento. Também, destituído de crase, tanto vê como ajuda um pobre aparelho de televisão marginal.
À areia, praia.
À visão, pobre!
Por Pedro Lísias

A Síntese e a Caixa de Papelão



Frágil, sinteticamente, é o que está dentro da caixa hermeticamente fechada. Mas, a síntese detém de forma comprimida muito mais do que superficialmente revela “frágil”.
Poderiam ser os vincos, que dão robustez ao papelão ao ser dobrado, a mimética da fragilidade?
Caixa de papelão, por definição, é o encontro de si mesmo em si mesmo. Mas por quê? Dá-se que as abas têm um comportamento que busca compor o mesmo que o fundo e os lados da caixa de papelão – o que é melhor aferido em caixa cúbica. Para se evitar uma eterna repetição, as partes terminam se completando na contramão: fitas largas repetindo “frágil” dão conta de juntar o que poderia ser um mero papelão – que, se não configurado em caixa, numa gafe perdida estendida no chão ficaria, servindo de entreposto calçada-corpo, relativizando a umidade e o frio encolhido e pobre frio.
Assim como os origamis, quase que fractalmente assumem formas transgressoras dos padrões de dobras de caixas, a síntese consegue, geometricamente, dar sentido às coisas concretas e abstratas, tornando o papelão bem mais coerente.
É, pois, nesta hora, que surge a grande inquietação: existe a antítese da caixa de papelão?
Se pelo avesso tudo é ao contrário, talvez os vincos dialéticos pudessem fortalecer a caixa. E o conteúdo frágil teoricamente também se alicerçaria no forte tom oxítono do “papelão”.
Quanto ao frio, em síntese, do avesso ou não, continua depender da antítese da caixa de papelão: que se abre e acolhe o frágil cidadão.


Por Pedro Lísias

Caixa tem nuca?



Nunca vi uma caixa com nuca.
Talvez elas não se acoplem bem à quadradeza!
Ou são muitos lados, o que confundiria se de fato este ou aquele é a nuca.
Nunca vi caixa com nuca!

Mas as nucas são essenciais, pois dão sentido e, por oposição, revelam o rosto à frente.
Mas as caixas e as nucas não entraram, ainda, num acordo para esclarecer a todos e a todas, de forma definitiva, onde se enquadraria a nuca numa caixa.
Algumas vertentes defendem que caixas podem ter quatro nucas, desde que sejam cambiáveis, caso a caixa tombe – se bem que, se a caixa resolver mesmo se deitar, a nuca é boa para apoiar ao travesseiro.
Há outras diretrizes que conferem força à ideia de que “pode haver nuca nas caixas, desde que elas não se oponham às convenções e regras que normatizam nucas em caixas”. Esta linha é mais complicada, visto que as caixas podem se opor de forma involuntária às nucas; e é ainda mais complexo nos casos que derivam da primeira vertente.
Textos antigos não assumiram qualquer preocupação com a questão, apesar de as nucas precederem as caixas. Desse modo, resta esperar – sabendo que as nucas nunca deixarão de existir – que as caixas resolvam o tão logo seja possível a questão, para que nunca haja excedente de nucas, o que nos infere pensar que, paliativamente, as nucas, por enquanto, vão ficar dentro das caixas!
Assim, conclui-se que caixa tem nuca!

Por Pedro Lísias

O Perdão tem Força de Atração



 as palavras e o texto voltaram a se falar.

Quebra-cabeça por difícil que pareça, tem conectividade. As peças dos quatro cantos, mesmo separadas, têm força central: as peças quasiquadradas vão dando as mãos, quadro de mãos dadas. Peças que não são nada aparentam tudo quando juntadas! Fazem da cordinha da alma o fio que conduz a atração, como muitos abraços que formam um abração – solução na palma da mão.
Inexplicável, atração leve, de dois não são um. Força do perdão é quando a porta se abre tipo o canto da boca, a maçaneta do sorriso. Olho mágico sem se esconder, janela aberta para receber e fazer do que resta festa e não perder – amizade que se distingue dos ladrilhos repetidos e azulejos pálidos, qual amigos aleijados. Perdões não são muletas, nem perdão mula. Não pedem para lado nenhum. Fazem ceder de todos os lados, prendendo sem sufoco algum – quando ninguém é contraído, voltam a ser amigos, traídos pela atração. Meio que um jeito não, na verdade uma informalidade do sim, desejando, senão, simplesmente não ser inimigos.
A tração, força que junta força. Trazendo consigo o que lhe é perdido, numa nova direção. A tração é um passo solitário que não vive só: atrás vem o segundo primeiro passo das marcas na areia do pé que caminha descalço, direita vai, e vem esquerda, calcanhar sola contornos – atração de pegadas dá breve longa caminhada. Que tem força de atração?
Beira de praia é igual perdão. As ondas vêm e se vão. Os caminhos andantes se apagam na areia tornado menos longa a caminhada. Se os passos são distantes, tão apartados e apertado coração, se as areias cedem seus desenhos de peregrinação, e os pés não sabem para onde vão: sábia hora de dar as mãos. Força de atração.
Pôr-do-sol é igual perdão. Quando os olhos fitados no horizonte se tornam farol para topadas errantes. Nem sol nem lua, dúvidas penumbram a indecisão. A primeira e as primeiras estrelas, estreiam como mil possibilidades, iluminar a luz que o sol deixou lugar: a via palavra perdoar. Uma constelação de cada passo que atraem para o que se quer chegar. O céu fica pontilhado para ajudar ligar os pontos que têm força de atração, um pulsar, fazendo figurar para além do que é possível imaginar, o perdão.
Texto é igual perdão. Uma família de diferentes significados e significantes alterados. É o som do silêncio que se lê mesmo ao vento, ventania, brisa, orvalho e relento. Relendo se testa ao sabor dos novos eventos, que significam mais se folheados e recheados ao invés de pasteis de vento – família nova no mesmo texto. Força de atração que cria novo contexto.
O perdão tem força de atração quando as palavras e o texto voltam a se falar.


Por Pedro Lísias

Mapeagente



A gente vai crescendo e se mapeando.

Conhecemos bem nossas ruas e quais têm problema de iluminação. No mapa da gente, as cidades são dinâmicas, mudam de lugar e as estradas de direção, sem ter que nada redesenhar.
No mapeamento individual temos sempre cuidado com as esquinas, pois são o contraste das curvas que fazemos com maior atenção. Se as plaquetas vermelhas fazem com que não pare, é sinal de queda de imunidade contra colisões e outras moléstias.
Somos cheios de conhecimentos válidos para antigamente. Guardamos traços cartográficos de muita coisa em muita gente: mapas arquivados. Lugares que não existem mais, aterros e florestas virgens, quase atlânticas.
Uma egografia poderia revelar mapas do nosso subterrâneo. Esgotaríamos sem esgotar, poços, nossas cavernas, estalactites e estalagmites, subconsciente pingando: uma gota indo outra voltando, da mente ao coração.
Temos feito pouco périplo[1] de nossas margens oceânicas. Para ao menos mapearmos o litoral em nossas cartografias, uma navegação de cabotagem suas linhas alcançaria. Mas, para enriquecer em além mar, para outros mapas de amizade conquistar, um guia marítimo detalhando os lugares por onde melhor passar dão segurança à nossa costa: região não muito fácil de se olhar.
Um mapa de cabeça para baixo ou meridianamente errado, pode nos fazer acreditar que somos orientais ou algum povo encabulado com registros geográficos e atrasados para seus horários de verão nada regimentais. A inversão do mapa poderia acabar desmaiando espanhóis, e criando outros lençóis à caminho de um mundo novo, tais foram os códices ignorados pelos algozes cabedais!
Mas, como cada mapa guarda uma memória muito sentimental, quase regional, os continentes são desenhados distantes, ora separam oceanos ora são separados por eles. Daí a importância dos mapas para a navegação. Tanto é assim, que para conhecer terras com geografias de sentimento seco, onde crescem desertos, é preciso um mapa que, tal qual para atravessar o mar, possa se contar com as estrelas: cintilosas pequenas pintas no alto da cabeça.
Para o mapa de som inventou-se a sonografia – da qual tira proveito cochilo. Como este mapa desconta atenção, é necessário desenvolver um onirógrafo, capaz de mapear os sonhos e as fantasias. Imagine uma geografia de relevo sonhado que releve a fantasia e a verdade como uma só realidade? Mapa que é mas não é! No lugar da indicação de cidades, pontilham reloginhos despertadores, cercados para contar ovelhas e nuvens destinadas a grilos cantores. No lugar de trem e trilhos de ferro, amendoins ferrolhados feitos vagões sobre largos trilhos de balcões, cujas estações das quais partem, são breves amontoados desses frutos enfileirados, que antes faziam par, trio e outras composições dentro de vagens vans.
O mapa de fim tem caminhos que levam para lugares penhascosos, mais longe que colina, mais que morro, com passagens estreitas e pinguelas. Mapa de um mundo cuja janela é ou o céu ou o chão, e em ambos a indicação no mapa diz afundar. Esse catálogo, dos gostos e raízes que ficaram, trata do mapeamento interrompido. Rompido, por já ter viciado dobras no mapa de tantos anos, o que um leve descuido faz virar pedaços disputados. Inter, por permanecer, ainda como mapa, digno da exploração descendente, néticas, vindouras, que se aventuram a descobrir tesouros guardados ternamente como avia[2] avus[3] queria.
Floreografia, um quadro sinóptico aquarelado cujas pétalas atraem beija-flores e homens românticos. Esse cardápio vem acompanhado de uma cartografia de chás, ervas e outros matos. É um mapa quadriculado, com pistas vermelhas perpassadas por brancas, um xadrez de palha e toalha de cesto, tudo indicado no caminho de migalhas deixadas nas preliminares brincadeiras de pique. Alguns arranjos florais denotam áreas de encontro das flores e lugares onde se encontram mel, orquídeas e amoras. O mapa mostra onde achar geleias reais, e perfume de torradas, fontes panificadas e outras feiras penduradas à beira das estradas.
Quando a gente cicatriza, aquela fita aderida que rejunta o mapa da gente, algumas cidades ficam onde não estava antes, e os caminhos se refazem em retas meio curvas e curvas meio retas. As distâncias são as mesmas, o máximo que acontece é quando nas extremidades surgem caminhos com subida – aparecem as orelhas. Curiosamente as quatro pontas se buscam, efeito do enrolado mapa de gente. Ao se querer que se abram, querem fechar e, tentar mantê-los fechados querem se abrir, como se tivessem engolido molas ou fingem língua de borboletas, língua de sogra ou qualquer outro brinquedo desenhado na mente.
Tem ser tão mapa que espalha seu sotaque na brisa parada da rosa dos ventos. Esperam que molhe a cartilha rachada que revela, quase nunca, ao invés de pegadas jumentas, cardumes correntes e correntezas. Necessidade de um pluviomapa, ao menos um gotálago, que preserve alguns milímetros de chuva na pequena lista de pedidos pendurados no terço entre a mercearia e a igrejinha. Levanta poeira no sopro sobre o mapa na gaveta guardado, como se conservado de um dia molhado. Nordeste precipitação de um mapa esperado.
É o mapa crescido, mapa da vida. A gente vai se mapeando e acrescentando lugares, que já existiam, e passaram a existir na gente. São as plantas, dos pés, das mãos, mostrando os caminhos que afastam da cidade solidão. Chegamos à grande metrópole, ou no pacato pequeno sítio, para ambos os quais é um segredo encontrar. Escolhido lugar de morar, diversidade mapeada de gente que desenha caçando tesouros, família coleção cartográfica de quem faz da vida seu lar.
Nosso mapa é a gente.


Por Pedro Lísias


[1] Registro, em sequência, dos portos e pontos geográficos costeiros. Circunavegação. Navegação de cabotagem.
[2] Avó.
[3] Avô