Palavras
monitoram letras.
Letras
atravessam palavras.
Inotáveis.
Sutis como os imperceptíveis sutiãs pós-modernos. Estes são os neutrinos. Se assemelham
às letras, que na hora h não faz nem cosquinha no português.
A palavra
monitor é perpassagem dos olhares que outrora capturavam raios catódicos. Mesmo
neutras, as letras ficam em polvorosa diante da indiferença e intocância dos
neutrinos viajantes.
A palavra
inocência captura alguns deles, isto é, com exatidão, apenas um. Nuance é como
uma rede de arrecadar neutrinos, mas como são como quiabos, seguram melhor a
baba das letras mais desprendidas.
Muitas
técnicas evoluíram para aprisionar essas partículas. Particularmente, umas
gotas de limão ou vinagre dão conta de sumir magicamente com a viscosidade do
quiabo. E este foi o ponto de ignição para ascender o arrebatamento de
neutrinos. Somado à ideia de que ao se enterrar letras em palavras
profundamente e absolutamente, ditando ao ambiente as condições mais gélidas
possíveis, o sucesso em cativar neutrinos estava no país dos pinguins.
O arroubo
dos peculiares, migrantes entreletras e entrelinhas, neutrinos resume-se nos
significado que lhes é emprestado pela justaposição de suas letrinhas. Elas
escondem duas questões: neutralidade e hinologia, as quais compõem seu ser
escapável. Como sintetizaram-se nessa partícula? Ninguém ousa responder sem
lançar-se ao peso das incertezas, mas o indício mais neutro e descomprometido
está justamente no seu êxtase e meio, isto é, seu arroba! É a abreviação de seu
endereço, o não-lugar, o não corpo, o espaço-entre.
Os
neutrinos começaram a ser mais visíveis quando as cartas perderam contato com
as mãos dos carteiros. Estão ali, bem no meio: remetente@destinatário.com. Bruscamente
giram centrifugando, eternamente fugindo de si mesmos para si mesmos. São
diariamente monitorados como as letras são pelas palavras.
No
entanto, porém, continuam sendo constantemente atravessadas.
Por Pedro Lísias
Nenhum comentário:
Postar um comentário