quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

AS PALAVRAS DAS FÁBULAS E A LETRAS FABULOSAS



Letras dormem no silêncio da fala.
Sonham, como quem fala, que são mais que letras.

Voam longe pensando que são palavras. Mas, de perto, são pequeninas borboletas, cujas asas ainda se desenrolam imperfeitas. Precisam estar secas, pois, ao vento, precisam ganhar sustentação. É quando alcançam as tão sonhadas palavras!
Palavras borbolentas são um sonho pesado cheio de letras lentas. Que repousam como as asas das pousadas mariposas. Vagarosamente abrem, e... depois, se fecham como a fumaça que vai surgindo do preto do café marrom que aquece a xícara branca, que tem dificuldade para voar, pois tem uma asa só. Fonema, fumaça que fomenta, capaz de ser o elo entre o sabor na boca que aguarda a chegada das quatro letras quentes que cascateiam bordando a xícara – é a única forma dela voar!
Essa mimética é o caminho pelo qual xícaras, borboletas, palavras e letras desenvolvem a habilidade voeja adaptativa. Este benefício é um quadro evolutivo para as xícaras e palavras, porém, para as borboletras é a mais nítida situação involucriforme.
Geralmente depenadas, as palavretas se assemelham às galinhas de galinheiro, muito mais aos garnisés. Dormem em poleiros e, quando muito, alcançam os galhos médios em breves voos que se arvoram acima dos chiqueiros, cuja aventura é o máximo.
Discreto e selvagem, o palavreado, muito caçado, vive margeando os contextos gerais, desviando e saltando letras e cercas com arames farpados dispostos lado-a-lado, preconceituados. Parece uma conversa desconexa, no entanto, ter bom palavreado significa falar bem, mas é também saber iludir com palavras, quando realidade vale-se dicionariamente da verbosidade ardilosa.
Mudando as letras, de palavras a borboletas, eis que várias estacas tramam em conluio com arames um grande curral. Lá estão elas: as vacas letreiras. Das ditosas letras ordenadas aos cuidados dos abraços dos polegares ordenheiros, o leito, um balde; ao som de um alumínio chiando, curtos jatos vão pautando, dos agudos aos graves, a música do vazio ao cheio.
Queijo ao meio, nata na lata, e letras nas palavras. Sem gravatas, botões são indispensáveis para alinhar os xadrezes que, no descuido do cansaço do arado, trocaram de casa. Não é nenhuma traição à vista, é tradição parcelada em linhas e faixas cruzadas, efeitos da composição das camisas suadas – lasca de queijo que ajuda novamente com café por a xícara a voar no rastro de uma grossa fatia de palavra caseira.
Tem lama tem, lema das letras do atoleiro, do barranco e do chiqueiro, mistureba de letras numa palavra empurrada pelo focinho do porco: lavagem. Para eles, vantagem, vagem, letregumes e outras cascas e rejeitos de tubérculos; raspas de polenta e arroz que não deu certo. Não há letra polêmica, somente fabulosa, que mesmo não dando certo como inconcreto, serve ao abstrato. Ou como substrato das palavras das fábulas.

Por Pedro Lísias

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