Letras
dormem no silêncio da fala.
Sonham,
como quem fala, que são mais que letras.
Voam longe
pensando que são palavras. Mas, de perto, são pequeninas borboletas, cujas asas
ainda se desenrolam imperfeitas. Precisam estar secas, pois, ao vento, precisam
ganhar sustentação. É quando alcançam as tão sonhadas palavras!
Palavras
borbolentas são um sonho pesado cheio de letras lentas. Que repousam como as
asas das pousadas mariposas. Vagarosamente abrem, e... depois, se fecham como a
fumaça que vai surgindo do preto do café marrom que aquece a xícara branca, que
tem dificuldade para voar, pois tem uma asa só. Fonema,
fumaça que fomenta, capaz de ser o elo entre o sabor na
boca que aguarda a chegada das quatro letras quentes que cascateiam bordando a
xícara – é a única forma dela voar!
Essa
mimética é o caminho pelo qual xícaras, borboletas, palavras e letras
desenvolvem a habilidade voeja adaptativa. Este benefício é um quadro evolutivo
para as xícaras e palavras, porém, para as borboletras é a mais nítida situação
involucriforme.
Geralmente
depenadas, as palavretas se assemelham às galinhas de galinheiro, muito mais
aos garnisés. Dormem em poleiros e, quando muito, alcançam os galhos médios em
breves voos que se arvoram acima dos chiqueiros, cuja aventura é o máximo.
Discreto e
selvagem, o palavreado, muito caçado, vive margeando os contextos gerais,
desviando e saltando letras e cercas com arames farpados dispostos lado-a-lado,
preconceituados. Parece uma conversa desconexa, no entanto, ter bom palavreado
significa falar bem, mas é também saber iludir com palavras, quando realidade
vale-se dicionariamente da verbosidade ardilosa.
Mudando as
letras, de palavras a borboletas, eis que várias estacas tramam em conluio com
arames um grande curral. Lá estão elas: as vacas letreiras. Das ditosas letras
ordenadas aos cuidados dos abraços dos polegares ordenheiros, o leito, um
balde; ao som de um alumínio chiando, curtos jatos vão pautando, dos agudos aos
graves, a música do vazio ao cheio.
Queijo ao
meio, nata na lata, e letras nas palavras. Sem gravatas, botões são
indispensáveis para alinhar os xadrezes que, no descuido do cansaço do arado,
trocaram de casa. Não é nenhuma traição à vista, é tradição parcelada em linhas
e faixas cruzadas, efeitos da composição das camisas suadas – lasca de queijo
que ajuda novamente com café por a xícara a voar no rastro de uma grossa fatia
de palavra caseira.
Tem lama tem,
lema das letras do atoleiro, do barranco e do chiqueiro, mistureba de letras
numa palavra empurrada pelo focinho do porco: lavagem. Para eles, vantagem,
vagem, letregumes e outras cascas e rejeitos de tubérculos; raspas de polenta e
arroz que não deu certo. Não há letra polêmica, somente fabulosa, que mesmo não
dando certo como inconcreto, serve ao abstrato. Ou como substrato das palavras
das fábulas.
Por Pedro Lísias
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