Cultura da
impunidade ou cultura da punição?
O que dá mais medo?
Sociedade “homofetada” ou crianças de arma na mão?
Segregação, sectarismo, homofobia, crianças más, um
reino de desgraças, são o enredo que tocam e nos envolvem ao redor destes últimos
dias que vivemos!
Mais moralistas ou revelando a verdadeira face da
sociedade brasileira?
Enquanto parecia apenas duas faces da sociedade
(minorias?) arranjando espaço no cenário nacional em torno dos “passíveis”
direitos humanos, religiosos e representantes da expressão homoafetiva, ambos
extremo-altivos, parecem ter construído o caminho para que as crianças e
adolescentes ganhassem, no momento, uma atenção da sociedade. Tal consideração serve
aos assumidos da cultura do medo que penalizar menores soa como cortesia.
Tanto faz, na cultura da impunidade ou da punição,
todos parecem estar em prontidão para receber ordens. Não faz assim tanta
diferença a consequência, desde que sejam ordens de decisão superficial e
imediata, sem olhar a quem. Com tanta gente em cima do muro, já que ninguém
cede de lado algum, cede o muro que vem abaixo, e uns por cima dos outros já
mostrando cada um seu rosto, condenam os mais novos e fracos que ficaram por
baixo. Lamentam agora os muros planificados – e os moralistas padronizados
afirmam solução digna ter encontrado. Valores e conduta, atitudes e ações,
testemunho de vida – danificados!
Quem está pronto(a) para Apocalipse 3. 15 e 16? “Conheço
a tua conduta. Não és frio, nem quente. Oxalá fosses frio ou quente! Mas,
porque és morno, nem frio nem quente, estou para vomitar-te de minha boca.”
Quais são as marcas que queremos deixar para nossa
sociedade? Quais as características?
Nos preocupamos mais com a aparência que pode a
sociedade estampar. Um tecido ruminado se esforçando para ser apresentado como aquela
de reputação ilibada, limpa, moderna e evoluída sociedade – tal qual as escolas
construídas sobre lixões, cujo ensino exala qualquer cheiro que não fica tão
indecifrável como a merenda que mal remenda a fome das crianças. E aos
professores, o que se recomenda?
Satisfação de gente morna é contentar-se com essa
caminhada morta que não ensina nem marca gratidão em nada para a eternidade.
Quanto mais mornos mais desumanos. Será ainda dito que trata-se de um favor à
sociedade que deverá triunfar como uma maioria moral.
Crianças imorais? O que se ensina a elas? São
adolescentes carentes de educação (de educação carente): e há escola? Ou ainda,
há ensino humano?
Segundo o filósofo e teólogo Mário Sérgio Cortella,
“a educação, especialmente a
escolar, ela é ensinada. O verbo ensinar tem origem latina com a ideia de
deixar uma marca. Ensignar significa
deixar um sinal em alguém. Deixar algo caracterizado em alguém. O grande
desafio para nós, homens e mulheres no século XXI, em qualquer idade,
especialmente adultos, é o que é que nós ensignamos?
O que nós estamos ensignando com as
novas gerações, isto é, marcando? Quais são os valores, as marcas, as ideias,
os sonhos, os desejos, aquilo que nós damos importância? Quais são as virtudes que
nós estamos ensignando e, quais são
os vícios que nós queremos retirar?” [texto transcrito do programa Tribuna
Independente da Rede Vida]
Viciados em punir, não parece que queremos retirar
vícios. Estamos enterrando os valores, as marcas, as ideias, os sonhos, os
desejos, as virtudes, ao encarcerar na escuridão olhos ainda vívidos que
poderiam simplesmente brilhar se, ao invés, escolhêssemos para as crianças e
adolescentes, bem como para todos e todas nós o melhor programa para a vida, Jo
10. 10b: “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância.”
Já te chamaram de “sem noção”? É, nos falta algo.
Sabemos qual o significado de ser humano? Ser humano é “ser-junto”,
dar vida à própria existência na presença de outros homens e mulheres – fraternalmente.
Nos distanciamos das decisivas sensibilidade e essência de que ser humano é aquele
que constrói sentidos para a vida em comunhão, vida coletiva.
Maioria moral destrói famílias e constrói escolas de
moralismos! Quem quer ver seus filhos “protegidos” desenhando nas escolas de
maioria moral outras crianças tracejadas tal como o pequeno judeu do filme “O
Menino do Pijama Listrado”? (o filho de um oficial nazista faz amizade com um
garoto que usa um pijama listrado e está sempre do outro lado de uma cerca eletrificada).
Precisamos questionar o “senso comum”! Este que não é
nem frio nem quente... o bom, bonzinho, o morno senso comum...
Escravos das “coisas que até então não sabíamos” nãos
arriscam criticar o senso comum, pois ainda não se deram conta de que “a maneira
como percebemos o mundo pode, ao contrário, nos impedir de compreendê-lo”, como
argumenta Duncan J. Watts em Tudo é
óbvio: desde que você saiba a resposta. No senso comum (ou para uma maioria
moral) é cômodo concordar com ideias que apenas requerem de nós apoio
superficial, como apoiar projetos que pretendem diminuir a maioridade penal. “É
como se o fracasso da lógica do senso comum fosse o fracasso apenas da lógica
das outras pessoas, nunca de si mesmos” (Watts, Duncan). É a postura do morno,
enganado pelo senso comum – ou daquele que se apaixonou pelo seu próprio
reflexo.
Que tal considerar que é um engano dizer “sim” à
proposta de tratar crianças e adolescentes como lobos ladrões e tentar prestar
atenção que este “sim” é o “sim” para roubar vidas traídas pelo mesmo senso
comum de “o que fazer? não há outro jeito” – fatalismo. Diminuir a maioridade
penal está sendo mornamente considerada como se já tivéssemos feito tudo e,
paradoxalmente, achando que nada aconteceu.
E assim, abrimos nossas brasileiras bocas para dizer
que somos um povo livre! Povo caloroso, receptivo, que lida e desfruta de suas
liberdades conquistadas nas ruas... libertos da ditadura, portadores do direito
de livre expressão... O expresso dessa liberdade passa livre, rente ao longe,
passa reto! O que temos agora é uma liberdade anarquizada controlada: protestos
anencéfalos com repressão policial! Movimento inconsciente de mutirão! A
multidão não compreende que “mãos que se juntam” trabalham pela vida. Sociedade
Ltda.
A sua liberdade não acaba quando começa a do outro, a sua
liberdade acaba quando acaba a do outro! Se alguma criança não for livre da
fome, da falta de escola, livre do poder sedutor dos que financiam a miséria e
promovem a restrição, livre do abandono, nenhum de nós é livre!
Você se acha “sem noção”? Tenha esperança! Tenha noção!
Noção de esperança é ir atrás, é se juntar, não
desistir! Procure coletivamente por vida em abundância para todas e todos, e
isso nos obriga a entender que ser humano é ser junto (junto das crianças, os
mais dependentes de nossa espécie).
Deixe a esperança potencialmente ensignar na sua vida o Amor que tudo transforma. “Depois disso,
algumas pessoas levaram as suas crianças a Jesus para que ele as abençoasse,
mas os discípulos viram isso e repreenderam aquelas pessoas. Então Jesus chamou
as crianças para perto de si e disse: Deixem que as crianças venham a mim e não
proíbam que elas façam isso, pois o Reino de Deus é das pessoas que são como
essas crianças.” (Lc 18. 15-16 / Mateus 19. 13-14)
Ao se movimentar, mobilize-se ecumenicamente. A
esperança nos ajuda a transgredir, superar, e essa é a marca que devemos
deixar: a marca da esperança!
Esperança não apenas para que haja sobreviventes. Esperança
para que tenham vida, e a tenham em abundância!
por Pedro Lísias
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