Por
natureza, as letras são diletantes.
Sempre
regressam ardilosamente musicais, como as palavras.
Quando as
letras conversam sobre quais palavras formar, estão confabulando em detalhes
que forma querem dar. Em nada dá se uma discordar. Muitas palavras usam só as
letras que gostam. Outras até recusam gostar de letras. Tanto é que nem chegam
a ser palavra, no máximo ingrata.
É no
disputado simpósio dos caracteres que as mesmas letras são o esforço de ser
outra coisa em outras palavras.
Palavras
tratam letras como ideias, que se coloca na cabeça, que se possa realizar.
Enquanto for possível reconhecer um ser humano num ser humano, se consegue
reconhecer as palavras pelas letras. As diferenças não enganam, as letras fazem
a palavra semelhança. Até que algumas letras deixem o terreno para novas
construções, as palavras ficam em ruínas.
Toda
palavra, para ser concreta, deve levar as letras que pretendem sê-la ao forno
para têmpera. As letras são os insumos das palavras, da matéria à forma.
Concretamente abstratas, letras travam nas palavras os sons dos nomes delas,
fazendo desse amontoado de letras palavras abstratamente concretas.
Sabe-se
que a palavra trincada pode perder uma ou duas letras quando trinca, e simplesmente
ganha outra aplicação. Isso se observa na palavra cerâmica, que para ser
formada foi testada a fogo. Antes disso não trincaria, pois suas letras
arenosas articularam-se aquosamente formando a palavra argila. Estranho: a
palavra seca, e a água que estava misturada na palavra, passa a passear dentro
de odres de barro. Só pode ser coisa do universo quântico. Algum entrelaçamento
– ou comportamento fantasmagórico – cujas letras estão ao mesmo tempo em duas
palavras, porém só existem de fato na dimensão cuja palavra é mensurável. Será
que as letras leigas sabem disso? Espera-se que as letras cientistas atribuam
palavra simples, apresentando experimentos que mostrem a palavra tecnologia, letras
arcaicas e atuais.
São as
letras virtuais formando palavras etéreas, rarefeitas, sutis e até celestiais.
Chegam em palavras que plumam e flamulam. São palavras bandeiras. Suportam
ventanias, mas se ausentam quase que totalmente quando não se apresentam as
letras sopradas no vento. Palavras imateriais, quase que misteriosas, como a
energia escura ou os sonhos que apresentam letras mirabolantes que chovem
alagando o chão. Formam poças e palavreados, pequenos riachos recheados de
letras de cabeça pra baixo fazendo exclamação para a palavra correnteza! A
invertida letra que pontua os trovões e as trovas. Poderia ser um gancho? Mas
acerta o alvo como uma seta de raio, letras que viraram pontuação.
Assim como
certos movimentos, as sinfonias das letras têm um fraseado que entornam oboés
até que amenizem as finas vibrações dos violinos, e se erguem os grandes arcos
que fazem da pequena palavra celo, um grande e robusto italiano violão. Letras
bemóis são semi-elas-mesmas ou um pouco mais que uma letra anterior. Se atrasam
um pouco, pois precisam contribuir com outras sete letras. Por padrão são cinco
comportadas e duas periguetes. Chegam pianinho, usando semitons... nota –
palavra sai à curta distância –, menorzinha ou o menor intervalo utilizado na
escala diatônica. Ficam as outras letras, uma a uma, nota e nota, atônitas. Com
clave se elege o par de letras que manda: normalmente se tem dó. Se vem antes
sustenido, permanece com dó.
Letras que
se repetem se alternando no afã de reler as palavras de trás para frente.
Letras fugindo para a torre da derrota, já que não podem formar uma palavra só
e nem querem ser acusadas de plágio, ou em letras mais amenas, imitonas. Divagam,
se afastam do assunto, dão voltas nelas mesmas até formarem, em suas idas e
vindas, palíndromos.
Palavras e
letras mudam rumos de conversas e elas mesmas as palavras e as letras.
Por Pedro Lísias
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