Tinta
quer ser.
Um
risco, ao que parece.
O papel
que domina as letras toma-as dos lápis e canetas, cujas cargas de tintas e
grafites são o duto tutor das palavras colhidas no amplo campo de tênues
domínios da fazendeira memória.
Lá são
semeadas entre as sensibilidades dos sonhos e instintos, palavras e letras que
germinam tanto para a criatividade quanto simplesmente para ócio ou até
osteoporoses nas imaginações tardias.
Sabe-se
que a imaginação não sabe para que lago da realização deve despejar. Mas, no
caminho, um rio de letras, agarra-se nas incertezas da palavra correntezas.
Esta sim, certamente tem a imagem em delta, talhada nos pensamentos que emergem
das calhas – a longa casa dos rios –, que fazem a transportagem de quase todas
as letras até os lagos. O pressuposto de que nem todas as letras completam a
jornada, foi revelado ao investigar os cais, seus lados e as praias que
margeiam os volumosos e profundos textos. A evidência, primeiramente nas
praias: não são de areia, mas de letras perdidas, náufragas. Naqueles que
erguem os cais, os pilares, as letras são como imperatrizes. Lá passaram a
esconder suas pérolas ao se perceberem encrustadas junto a sururus e ostras. E
nas praias, assumem das margens a marginalidade. São como que conchas vazias,
que, se fossem maiores ao menos colocariam em prática a memória dos ventos das
marés que moram no som eterno que se esconde nelas – daí as conchas acústicas,
que são, nada mais nada, menos que palavras antigas formadas por letras
perdidas nelas albergadas.
Quando as
letras chovem, isto é, se transformam em gotas, deixam a palavra nuvem e partem
para uma linguagem afluente! Assim é a outra maneira da imaginação alcançar os
grandes textos e represas. Às vezes chove em cima de um certo texto, porém, um
vento vira elegantemente a página, fazendo chover no lago seguinte, o que pode
até se tornar uma surpresa: com a chegada de um arco-íris, aparece também o
sol, para secar as poças que se formaram próximas à lagoa reservada ao próximo capítulo.
Quando
escritas a lápis, as imaginações se sucedem, incrivelmente somem sem
desaparecer: não há borracha que sugue totalmente letra por letra de palavras
contra as folhas apertadas. No entanto, imaginações à caneta prometem como
profetas resistirem até aos quase ultrapassados corretivos – estes retém a
capacidade de recobrir letras especificas com apenas uma ou duas demãos, mas
pecam na falta de adesão.
Nos
capítulos que se iniciam com títulos surfistas solitários, tão logo a onda
quebra, avançam como um texto sobre as areias de uma praia deserta, sempre
guardando uma certa distância das palmeiras que numeram cada página. Seguem-se
outras ondas, marolas e até citações de autores que emprestam outras palavras,
dando mais riqueza às enseadas. Mas letras novas não. Pois, para qualquer
palavra, já foram exaustivamente ensaiadas.
Lápis de
ponta feita sugerem a memorização suave. Por outro lado podem dar um furo na
história – basta querer impor demasiada sinceridade ao indispensável pingo de
um “i” ou ponto final. Já a ponta grossa, como um olho mágico de uma grossa
porta, costuma distorcer os recados e retratos que já muito sofreram na jornada
da imaginação até aqui. Por isso, neste caso, apontar não é feio! Isto, aos
lápis, os mantém tão queridos como as canetas, as mansas esferográficas.
Algumas
letras preferem azul, mas em palavras vermelhas não lhes resta escolha. É o
caso de algumas anotações que vão formando populações de letras cujas palavras
ocupam as molduras dos textos. Outras são as notas, que em provas colocam zeros
em situações extremas: se antes de todos os outros números, inclusive de uma
intrometida vírgula, ganha vermelho; mas, se após um um, quase mudo um, fica no
azul. É de uma lógica impensada, insensata, quando muito, imaginada.
Se bem que
números não são letras, no máximo palavras, lápis e canetas.
Por Pedro Lísias
Nenhum comentário:
Postar um comentário