quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

PALAVRAS, LETRAS, LÁPIS E CANETAS



Tinta quer ser.
Um risco, ao que parece.

O papel que domina as letras toma-as dos lápis e canetas, cujas cargas de tintas e grafites são o duto tutor das palavras colhidas no amplo campo de tênues domínios da fazendeira memória.
Lá são semeadas entre as sensibilidades dos sonhos e instintos, palavras e letras que germinam tanto para a criatividade quanto simplesmente para ócio ou até osteoporoses nas imaginações tardias.
Sabe-se que a imaginação não sabe para que lago da realização deve despejar. Mas, no caminho, um rio de letras, agarra-se nas incertezas da palavra correntezas. Esta sim, certamente tem a imagem em delta, talhada nos pensamentos que emergem das calhas – a longa casa dos rios –, que fazem a transportagem de quase todas as letras até os lagos. O pressuposto de que nem todas as letras completam a jornada, foi revelado ao investigar os cais, seus lados e as praias que margeiam os volumosos e profundos textos. A evidência, primeiramente nas praias: não são de areia, mas de letras perdidas, náufragas. Naqueles que erguem os cais, os pilares, as letras são como imperatrizes. Lá passaram a esconder suas pérolas ao se perceberem encrustadas junto a sururus e ostras. E nas praias, assumem das margens a marginalidade. São como que conchas vazias, que, se fossem maiores ao menos colocariam em prática a memória dos ventos das marés que moram no som eterno que se esconde nelas – daí as conchas acústicas, que são, nada mais nada, menos que palavras antigas formadas por letras perdidas nelas albergadas.
Quando as letras chovem, isto é, se transformam em gotas, deixam a palavra nuvem e partem para uma linguagem afluente! Assim é a outra maneira da imaginação alcançar os grandes textos e represas. Às vezes chove em cima de um certo texto, porém, um vento vira elegantemente a página, fazendo chover no lago seguinte, o que pode até se tornar uma surpresa: com a chegada de um arco-íris, aparece também o sol, para secar as poças que se formaram próximas à lagoa reservada ao próximo capítulo.
Quando escritas a lápis, as imaginações se sucedem, incrivelmente somem sem desaparecer: não há borracha que sugue totalmente letra por letra de palavras contra as folhas apertadas. No entanto, imaginações à caneta prometem como profetas resistirem até aos quase ultrapassados corretivos – estes retém a capacidade de recobrir letras especificas com apenas uma ou duas demãos, mas pecam na falta de adesão.
Nos capítulos que se iniciam com títulos surfistas solitários, tão logo a onda quebra, avançam como um texto sobre as areias de uma praia deserta, sempre guardando uma certa distância das palmeiras que numeram cada página. Seguem-se outras ondas, marolas e até citações de autores que emprestam outras palavras, dando mais riqueza às enseadas. Mas letras novas não. Pois, para qualquer palavra, já foram exaustivamente ensaiadas.
Lápis de ponta feita sugerem a memorização suave. Por outro lado podem dar um furo na história – basta querer impor demasiada sinceridade ao indispensável pingo de um “i” ou ponto final. Já a ponta grossa, como um olho mágico de uma grossa porta, costuma distorcer os recados e retratos que já muito sofreram na jornada da imaginação até aqui. Por isso, neste caso, apontar não é feio! Isto, aos lápis, os mantém tão queridos como as canetas, as mansas esferográficas.
Algumas letras preferem azul, mas em palavras vermelhas não lhes resta escolha. É o caso de algumas anotações que vão formando populações de letras cujas palavras ocupam as molduras dos textos. Outras são as notas, que em provas colocam zeros em situações extremas: se antes de todos os outros números, inclusive de uma intrometida vírgula, ganha vermelho; mas, se após um um, quase mudo um, fica no azul. É de uma lógica impensada, insensata, quando muito, imaginada.
Se bem que números não são letras, no máximo palavras, lápis e canetas.

Por Pedro Lísias

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