Um
pouco mais de letra, palavra ser há.
Toda
resistência é leitura e escrita.
Residem no
texto, pelo dom das linhas e traços previamente arquitetados. Alinhamento de
ponta. Grafitando com os olhos que migram do ocidente ao oriente. Em leitura
dinâmica, correm com rapidez tal que só se vê palavras, bem poucas letras. Para
um ler deleite, as letras surgem em sílabas bem aliadas. São alianças que
aceitam, antes e depois, com permissão de cada palavra, um prefixo e, mais ao
sul, fixo outro também.
As letras
resistem e, tentando ser independentes, as palavras existem. Prova disso é o
feriado resfriado. No alto, clave de sol, como a letra que ordena os pardais
nos fios das reuniões entre os postes de luz e de canções, que por eles
andorinhas substitui em pautas para o verão. Ficaram resfriadas, e no feriado,
uma só não muda de estação.
Resultado
de uma topada de dedão, na lapa lavra-se a aguda dor, que convoca com urgência
e emergência, as palavras sem pudor que nem duas mãos sobre a boca conseguem
deter. É em letras, sem hesitação, um “deixe-me-ver” olhando para cima sem
avisar aos pés que tomem para si as indispensáveis atenções oculares, habilidosas
em prever os ladrilhos que saltam do chão para satisfazer sua curiosidade. Ação
que promove o tão incontornável encontrão. Isso não acontece em casa, pois
nenhuma letra dela salta. A não ser que o piso seja de taco – veja como o “t”
sobrepassa o piso –, um tropeço anunciado.
Letras
hesitam, mas também resistem criando leituras esquisitas. No caso de um peito
fedorento, a confusão abunda. No seio da limpeza das palavras, letras, um pouco
a mais ou um pouco a menos, colocam facetas, caretas e carecas, atores da vida
privada, como insumos para caricaturas escritas por lápis à mão. São inscrições
formulárias, que requerem das intensões de palavras hilárias, fórmulas que a
muitos encantarão. Na contramão, a poucos, como as letras, resistência terão.
As palavras debocham, ainda que suas próprias letras lutem para recuar a
sarcasmo, cujas letras não ultrapassam meia altura, com o objetivo de não colar
o rosto de ninguém ao chão.
Como
pilares de um panteão, as letras invariavelmente hesitam sair das colunas e
outras posições e oposições. Estão sempre em contrapesos, contrabalanços e
contratos empreitados. Palavras que telhadam, grandes e monumentais. Palavra
que vigam, já que as letras, quase todas ocupadas, não vingam fora dali. Mesmo
que reste a filosofia, capaz de ser para as letras o caminho para a palavra
liberdade – vazia –, são escravizadas em sofismas e outras heteronomias que
envolvem as letras em padrões, grades e caixões.
De escritas descritas nasceram as
oportunidades que reexistem. Ao pincelar as letras abaixo da palavra terrena, o
mundo redescobre o vão – abismo invertido e positivo entre o rei e a nação. Horizonte
equilátero, que balança manso como um lençol de mar, que embarca palavras e
letras sem deixar de sonhar.
Tudo isso
é possível, pois, em todas as palavras, nas diferentes e nas mais frequentes,
as letras são iguais.
Por Pedro Lísias
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