Cortinas
de letras abrem-se em palavras, de poema a poesia.
Canhão
de palavras explode em letras no centro do tablado.
As rimas
são as irmãs imãs que escolhem no par ou ímpar quais letras finais utilizar.
É uma singular forma de atração.
Como as cortinas de um palco que tenuemente separam, como um frio na barriga, a
palavra expectativa; ela em cima do muro sem saber se é seguro descer para o
lado dos expectadores ou dos atores que decoram o texto por meio de muitas letras
pós-shakespearianas entre agouros.
Atos futuros, em cena letra que se
assume personagem, palavra à margem: um Teseu anti-herói, filho de sertanistas.
Na ponta oposta, surgindo ao final da última palavra da primeira fala, ergue-se
deixa, personagem de poucas letras, começando minúscula e continua assim até
que possa iniciar um próximo ato.
Deixa, aqui! Impera, em tom
esbravejado. Várias letras aparecem rapidamente de ambos os lados recompondo a
cortina – fim do segundo ato.
A plateia, letrada, divide-se em
duas personagens: Silêncio e Cochicho. A cada fileira, uma palavra. As plurais,
durante o intervalo, singulavam – bastava o “s”, apertado, ir para o toalete.
Algumas letras acabam trocando de lugar, no afã de não perder o reinício, o que
era tropa virou trapo; de fileiras o “s” se ausentou primeiro, “i” também:
ficou fuleira. Certamente estariam em um dos toilettes – saíram à francesa...
Palavras dão determinação às letras.
Depois que está tudo muito bem imaginado, segue a receita: pra palavra
recheada, um punhado de letras ou o quanto baste. Assim começava o terceiro
ato. O, o Distraído, era meio-sobrinho da letra Ô, o meio-tio que traíra “Dis”.
Ou entra no palco. Logo, em seguida, Alceu, melhor amigo que “Dis” acha legal,
Ou não. A complexa cena parecia reflexo da plateia, um teatro.
Expectando olhava atentamente a
plateia. Distraído percebe que não tem mais Atenção. Logo aparece seguido por
Alceu; lado-a-lado Ô tenta reverter a situação que O sofria. Então, “Dis”, que
não suportava tal perspectiva, sai de cena, deixando a plateia novamente
assumindo Silêncio e Cochicho. Fim do quarto ato.
Uma Inovação! Anunciava o quinto e
último ato. Algo, debaixo da escada, a palavra da má sorte que miava baixinho
mas longamente, criava seus grunhidos a partir de letras sombrias que davam tom
de suspense ao Desfecho, palavra que personificava um pequeno fantoche
esquecido no canto esquerdo do tablado. Roubando a atenção como O bem faria se
fosse um ventríloquo, Silêncio e Cochicho se voltaram para o pequeno Desfecho.
Eis que entra O disfarçado de Ô. O inovara ao deixar Distraído para ganhar o
centro do palco superando todas as expectativas, tendo incluído todas as
palavras e todas as letras no espetáculo!
Por Pedro Lísias
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