Como vai
sua memória das coisas que lhe fazem ser quem você será?
Mirando
distante o chá que beira os bules de porcelana, finas as xícaras brilhosas nas
bordas adouradas, os mindinhos levantados apontando numa direção incerta, sua
avó e sua mãe. Se você hoje lembra (mesmo que não sejam as lembranças suas) de
ter estado sentada no assoalho encerado brincando com as bonecas enquanto o
laço de fita do seu vestido lhe fazia presente para o sofá antigo às suas
costas, e diante de você toda a sua vida que lhe distanciou daquele chá, é
porque muitas e muitas coisas mudaram, ficaram.
Chá não é
mais de paciente infusão, hoje se usa sachê. A velocidade das micro-ondas
anularam – como a lenha um dia perdeu para o fósforo e seu precioso contato
imediato com o gás da cozinha rápida – a possibilidade daquela gostosa e
agradável conversa da grande sala de estar. Estar? Estar demora muito! Enquanto
o chá se encontra com a água, no mesmo instante você postou “agora vou tomar um
chazinho” – sozinha (momento #chatinho).
Quais
belezas de amiga você não tem porque mal se interessa em quem você será? Fugiu
da sala de estar, não ouve o que sua avó, sábia e deliberadamente cheia de vida
prendida prendada, veio dizer à sua mãe, tia e amigas. No chão nem você nem
filha querem estar, pois porcelanato é frio igual as xícaras sufocadas quem
sabe numa cristaleira fiel, ou talvez, mortas numa caixa de sandálias e saltos.
Às honras
da mesinha de centro, ou quase em ar livre, mesinhas que compõem com o contorno
avarandado daquelas casas de estar. Jardins decorativos que têm as copas mais
altas alcançando vultuosos trinta centímetros de plantinhas sem graça. Nada
disso! Nas memórias que fazem você ser quem você será, há uma árvore mãe do
balanço preso por corda e acento de taboa. Tabuleiro, sempre bolo deve estar,
senão torta como a grande árvore que sombreia a esquina da calçada e da
varanda. Tudo se saboreia: a brisa fresca e o solzinho de tardinha, o cheiro da
massa assada com carinho que levanta cheiro entre as cortinas rendidas à janela
da cozinha que esfria torta.
Mesmo idos
os tempos daquelas típicas famílias das salas de estar, se achou que se
libertando dos domínios patri e matrilineares – os quais cederam espaço e
perderam valor para pequenos aparelhos “inteligentes” –, agora não mais se
observa o que fazem e como fazem você ser quem você será, pois ninguém mais
senta na sala de estar: esse bicho está em extinção.
Talvez
trocar receitas de bolo enviando vídeos do youtube,
post no facebook ou por conversas no whatsap, estejam rogando por uma sala de
estar, ainda que tudo feito rápido sem bule de chá – o bom é cupcake, bolo de caneca –, a cena de
experimentar ouvindo as vozes de amigas e seus sorrisos e gargalhadas recriam a
sala onde fazem você ser quem você será. Se mãe, uma menina poderá se lembrar
de ter estado sentada no assoalho encerado brincando com as bonecas enquanto o
laço de fita do seu vestido lhe fazia presente para o sofá antigo às suas
costas, e diante de você toda a sua vida que se encontrou naquele chá.
A sala de
estar, a voz da vó, o sorriso da mãe, as bonecas e a filha multiplicadas pelas
risadas das amigas visitas, devolvem os valores que haviam se tornado
habilidades celular, reduzidas a smartphones
e encontros anárquicos ou, de novela deitada no sofá e curtidas na tela
“tédio-scream” à palma da mão.
Não se veem,
não se encontram e se dizem amigas. Não fazem ideia da diferença da solidão da
fumaça fria numa sala vazia e daquela que preenche a sala de estar com as
amigas, a vó, a mãe e quem sabe até a tia bloqueada no facebook porque falou umas verdades combatendo suas mentiras...
fofoca quente que só acontece entre elas: as xícaras de chá na sala de estar.
Me diga,
amiga, como vai sua memória das coisas que lhe fazem ser quem você será?
Por Pedro Lísias
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