quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Me diga, amiga



Como vai sua memória das coisas que lhe fazem ser quem você será?
Mirando distante o chá que beira os bules de porcelana, finas as xícaras brilhosas nas bordas adouradas, os mindinhos levantados apontando numa direção incerta, sua avó e sua mãe. Se você hoje lembra (mesmo que não sejam as lembranças suas) de ter estado sentada no assoalho encerado brincando com as bonecas enquanto o laço de fita do seu vestido lhe fazia presente para o sofá antigo às suas costas, e diante de você toda a sua vida que lhe distanciou daquele chá, é porque muitas e muitas coisas mudaram, ficaram.
Chá não é mais de paciente infusão, hoje se usa sachê. A velocidade das micro-ondas anularam – como a lenha um dia perdeu para o fósforo e seu precioso contato imediato com o gás da cozinha rápida – a possibilidade daquela gostosa e agradável conversa da grande sala de estar. Estar? Estar demora muito! Enquanto o chá se encontra com a água, no mesmo instante você postou “agora vou tomar um chazinho” – sozinha (momento #chatinho).
Quais belezas de amiga você não tem porque mal se interessa em quem você será? Fugiu da sala de estar, não ouve o que sua avó, sábia e deliberadamente cheia de vida prendida prendada, veio dizer à sua mãe, tia e amigas. No chão nem você nem filha querem estar, pois porcelanato é frio igual as xícaras sufocadas quem sabe numa cristaleira fiel, ou talvez, mortas numa caixa de sandálias e saltos.
Às honras da mesinha de centro, ou quase em ar livre, mesinhas que compõem com o contorno avarandado daquelas casas de estar. Jardins decorativos que têm as copas mais altas alcançando vultuosos trinta centímetros de plantinhas sem graça. Nada disso! Nas memórias que fazem você ser quem você será, há uma árvore mãe do balanço preso por corda e acento de taboa. Tabuleiro, sempre bolo deve estar, senão torta como a grande árvore que sombreia a esquina da calçada e da varanda. Tudo se saboreia: a brisa fresca e o solzinho de tardinha, o cheiro da massa assada com carinho que levanta cheiro entre as cortinas rendidas à janela da cozinha que esfria torta.
Mesmo idos os tempos daquelas típicas famílias das salas de estar, se achou que se libertando dos domínios patri e matrilineares – os quais cederam espaço e perderam valor para pequenos aparelhos “inteligentes” –, agora não mais se observa o que fazem e como fazem você ser quem você será, pois ninguém mais senta na sala de estar: esse bicho está em extinção.
Talvez trocar receitas de bolo enviando vídeos do youtube, post no facebook ou por conversas no whatsap, estejam rogando por uma sala de estar, ainda que tudo feito rápido sem bule de chá – o bom é cupcake, bolo de caneca –, a cena de experimentar ouvindo as vozes de amigas e seus sorrisos e gargalhadas recriam a sala onde fazem você ser quem você será. Se mãe, uma menina poderá se lembrar de ter estado sentada no assoalho encerado brincando com as bonecas enquanto o laço de fita do seu vestido lhe fazia presente para o sofá antigo às suas costas, e diante de você toda a sua vida que se encontrou naquele chá.
A sala de estar, a voz da vó, o sorriso da mãe, as bonecas e a filha multiplicadas pelas risadas das amigas visitas, devolvem os valores que haviam se tornado habilidades celular, reduzidas a smartphones e encontros anárquicos ou, de novela deitada no sofá e curtidas na tela “tédio-scream” à palma da mão.
Não se veem, não se encontram e se dizem amigas. Não fazem ideia da diferença da solidão da fumaça fria numa sala vazia e daquela que preenche a sala de estar com as amigas, a vó, a mãe e quem sabe até a tia bloqueada no facebook porque falou umas verdades combatendo suas mentiras... fofoca quente que só acontece entre elas: as xícaras de chá na sala de estar.
Me diga, amiga, como vai sua memória das coisas que lhe fazem ser quem você será?

Por Pedro Lísias

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