quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

PALAVRAS ENLETRADAS



Um palavreado que mantém imerso muitas letras.
Palavras que conservam letras.

O mundo plural precisava se estender. As palavras, entender. E as letras, para tamanho estiramento de tempo, mal supriam a fome das palavras do fronte. Letras, fonte de infantaria, recrutadas aos montes, faziam divisões de palavras gigantes para uma guerra do fim que longe se via cavalgando.
Palavra polvorosa carregada de letras desastrosas que ao céu combinam com a cor da palavra nublado e ao chão, com impacto, som de imensa destruição, letras procuram abrigo na cinzenta palavra bunker, em vão.
Letras entrincheiradas, em palavra escavada, minavam as ensurdecedoras campanhas das palavras que enviavam letras para postos avançados – duas palavras que correm risco de baixas no conjunto de suas letras.
Há palavra campo de concentração de letras, obrigadas a palavras forçadas, trabalho, escravo e outras prisões. Letras da inanição, palavra sobrevivente – texto de cepa dolorosa, estirpe sem sangue – das letras sufocadas; camarada engasgada.
Letras em palavras encasteladas pontilham as palavras muros e portões. Só não sabem da palavra de passagem de letras secretas, que dão fuga despercebida das palavras inimigas e letras sentinelas subentendidas: implícitas despedidas.
Letras guerreiam em palavras continentes e por onde contextualizam suas significativas armas, também saqueiam letras de palavras fazendas se não são contidas. Não há suprimentos suficientes para letrar todas as palavras alistadas. Em outras palavras, na guerra, as letras nelas acampadas são fome e exaustão.
Grande invenção, assim como as palavras, as latas que conservam letras, as quais permanecem por mais tempo nos rótulos titulares de salsichas, tomates, leite condensado, milho cozido, frutas e legumes.
Tropas de letras, conflito em palavras, se não abastecidas ou mal acondicionadas, nunca mais poderiam ser usadas.
Palavras enlatadas, com letras em conserva, alimentaram os longos parágrafos de guerra para que prosseguissem, de letra em letra, até o fim do texto ou de uma breve conversa de lata que vaga levada rolando pelo vento do último canhão.
Letras financiaram novas palavras, construção e reconstrução, refazendo comércio antes submerso, e outras palavras devidas às grandes letras do tesouro. Letras em silêncio, palavra lenço que enxuga o choro, verbalizadas com doutrina, tramam um plano: marcha ao crescimento econômico.
Palavras rotulam potes à beira do penhasco de gôndolas. Seguram suas letras que tendem a descolar de carona em palavras de compras com rodinhas maluquinhas que giram sem contribuir com nenhuma direção. Letras emprateleiradas formam um incompreensível texto horizontal, super marcado por cercas verticais ilegíveis – senão por olhos vermelhos que as transformam em números preciosos. Os títulos disputam acirradamente uns com os outros, procurando olhos, enquanto as barras verticais tentam alcançar bolsos e alojamentos para notas cifradas ou que num cartão fingem que estão.
Os textos disfarçados apresentam um super mercado de letras destinadas a testemunhar o que por trás da estampa está: após camadas de plásticos, caixas de papelão ou numa caverna de platão, se acomodam ingredientes curiosos.
Extratos de letras, textos em combate: dígitos pontuais e vírgulas decimais remarcam preços enquanto o estoque de letras faz e refaz palavras empilhadas. Palavra amassada coloca letras detalhadas em perigo e escorregão.
Letras em fila são capazes de enganar solidão e paciência ao mesmo tempo: fazem o tempo se dividir todo em dez ou quinze volumes, parecendo perder a disputa para qualquer caixa preferencial. A palavra com menos letras incrivelmente são mais demoradas que aquelas que têm mais letras, caso pareça mais fácil ler uma linha menor. Letras saltam de linha em linha, furando fila na contramão, e ainda assim, mesmo a que vem primeiro fica por último, como se depois do “Z” uma letra ainda pudesse berlindar sem solução!
Letras não fazem guerra, são disputa de palavras compradas. Estão enlatadas fazendo ir longe palavra pequena e palavra grande. Ainda que pouca diferença entre as latas das letras, a menor é uma letra maior que a palavra “mais grande” tentou ser: paradoxo equivocado, reciclagem de palavras, letras e latas.

Por Pedro Lísias

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