Um
palavreado que mantém imerso muitas letras.
Palavras
que conservam letras.
O mundo
plural precisava se estender. As palavras, entender. E as letras, para tamanho
estiramento de tempo, mal supriam a fome das palavras do fronte. Letras, fonte
de infantaria, recrutadas aos montes, faziam divisões de palavras gigantes para
uma guerra do fim que longe se via cavalgando.
Palavra
polvorosa carregada de letras desastrosas que ao céu combinam com a cor da
palavra nublado e ao chão, com impacto, som de imensa destruição, letras
procuram abrigo na cinzenta palavra bunker,
em vão.
Letras entrincheiradas,
em palavra escavada, minavam as ensurdecedoras campanhas das palavras que enviavam
letras para postos avançados – duas palavras que correm risco de baixas no
conjunto de suas letras.
Há palavra
campo de concentração de letras, obrigadas a palavras forçadas, trabalho,
escravo e outras prisões. Letras da inanição, palavra sobrevivente – texto de
cepa dolorosa, estirpe sem sangue – das letras sufocadas; camarada engasgada.
Letras em
palavras encasteladas pontilham as palavras muros e portões. Só não sabem da
palavra de passagem de letras secretas, que dão fuga despercebida das palavras
inimigas e letras sentinelas subentendidas: implícitas despedidas.
Letras
guerreiam em palavras continentes e por onde contextualizam suas significativas
armas, também saqueiam letras de palavras fazendas se não são contidas. Não há
suprimentos suficientes para letrar todas as palavras alistadas. Em outras
palavras, na guerra, as letras nelas acampadas são fome e exaustão.
Grande
invenção, assim como as palavras, as latas que conservam letras, as quais
permanecem por mais tempo nos rótulos titulares de salsichas, tomates, leite
condensado, milho cozido, frutas e legumes.
Tropas de
letras, conflito em palavras, se não abastecidas ou mal acondicionadas, nunca
mais poderiam ser usadas.
Palavras
enlatadas, com letras em conserva, alimentaram os longos parágrafos de guerra
para que prosseguissem, de letra em letra, até o fim do texto ou de uma breve conversa
de lata que vaga levada rolando pelo vento do último canhão.
Letras
financiaram novas palavras, construção e reconstrução, refazendo comércio antes
submerso, e outras palavras devidas às grandes letras do tesouro. Letras em
silêncio, palavra lenço que enxuga o choro, verbalizadas com doutrina, tramam um
plano: marcha ao crescimento econômico.
Palavras
rotulam potes à beira do penhasco de gôndolas. Seguram suas letras que tendem a
descolar de carona em palavras de compras com rodinhas maluquinhas que giram
sem contribuir com nenhuma direção. Letras emprateleiradas formam um
incompreensível texto horizontal, super marcado por cercas verticais ilegíveis
– senão por olhos vermelhos que as transformam em números preciosos. Os títulos
disputam acirradamente uns com os outros, procurando olhos, enquanto as barras
verticais tentam alcançar bolsos e alojamentos para notas cifradas ou que num
cartão fingem que estão.
Os textos
disfarçados apresentam um super mercado de letras destinadas a testemunhar o
que por trás da estampa está: após camadas de plásticos, caixas de papelão ou
numa caverna de platão, se acomodam ingredientes curiosos.
Extratos
de letras, textos em combate: dígitos pontuais e vírgulas decimais remarcam
preços enquanto o estoque de letras faz e refaz palavras empilhadas. Palavra
amassada coloca letras detalhadas em perigo e escorregão.
Letras em
fila são capazes de enganar solidão e paciência ao mesmo tempo: fazem o tempo
se dividir todo em dez ou quinze volumes, parecendo perder a disputa para
qualquer caixa preferencial. A palavra com menos letras incrivelmente são mais
demoradas que aquelas que têm mais letras, caso pareça mais fácil ler uma linha
menor. Letras saltam de linha em linha, furando fila na contramão, e ainda
assim, mesmo a que vem primeiro fica por último, como se depois do “Z” uma
letra ainda pudesse berlindar sem solução!
Letras não
fazem guerra, são disputa de palavras compradas. Estão enlatadas fazendo ir
longe palavra pequena e palavra grande. Ainda que pouca diferença entre as latas
das letras, a menor é uma letra maior que a palavra “mais grande” tentou ser: paradoxo
equivocado, reciclagem de palavras, letras e latas.
Por Pedro Lísias
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