Letras
brilham, palavras assobiam.
Sopro
são traços em palavras compostas.
Todas as
letras são baianas. Elas não nascem, estreiam. Brilham como estrelas, mesmo que
para elas o céu seja uma pequena palavra. Conseguem formar constelações quando,
à semelhança das nuvens, chovem pirilampando, vagando juntas como pequenos lúmens
– quase se disfarçam em orvalhos do tipo abajur.
Flauta,
palavra que só falta quando cessa fôlego às letras. Estas, às vezes, entopem; ou
perdigotam quando desembocam; ou das palavras se soltam em cuspes ou babas –
para fugir de torcer o nariz, preferem ser letras apenas respingadas.
Palavras
não se confundem, mas confundem as letras. São brincadeiras, por meio das
quais, rodopiando letras, se fundem com outras nunca iguais. Dirá-se-ia,
fazendo das letras passadas presentes, e, das futuras, ausentes. Traços
inclinam e viram vírgulas, um tipo de hífen com avaria, quase um camarãozinho –
mais exato que vírgulas sejam plânctons fugindo de um imenso tubarão-baleia, e,
esses sinais crustáceos separam e seguram letras, respiração e, com certa
prepotência, até a interpretação – letra que dorme a palavra leva.
Se o
pressuposto das palavras são letras, estas, brincando, poderiam ser
pós-suposto. Basta um pequeno sopro e um traço pós-posto.
Sem a palavra limite, as letras ficariam mais atiradas, e as palavras
assediadas. Não há problema, pois toda brincadeira é encontro; confronto sem
afronto? As letras que às palavras tietam, disputam até gincanas, às vezes em
duplas, as que sobram entram em cana.
Em sumo,
as letras garapam melhor com a palavra limão, dado que esta assume, em suma,
sua fase espremida. São interessantíssimas as letras que formam por dentro o
limão. Uma rede engomada de gomos fiéis individuais, mas jamais
individualistas: como as letras, juntos diferenciam-se em novos significados,
mesmo que lhes custem a forma, o arranjo e até os fonemas. Mas, em se tratando
do interior dos limões, servir à limonada é um prazeroso ato de bravura – se
bem que esses gomos cometem travessuras. Os danados, tão miúdos, são capazes de
azedar o paladar se não lhes adoçarem. Exigentes, em coro solicitam que sejam
servidos com gelo.
Travessões
e travessuras, travas e trovas, trovões e traquinagens, todas essas palavras
são letras se divertindo. Sacanagem já são elas trapaceando. Assim o fazem as
tratantes ou as triunfalistas. Letras do truco e do truque brincam apostando ou
iludem brincando – quase sempre visando lucro e trunfo por outras vias. Letras
da palavra lacram formam grupos fechados, máfias, ou guetos. Estes últimos como
consequência do lacre do lucro ou do laquê. Ambos criam uma carapaça quase
impenetrável às letras que
buscam a liberdade de mentes através das brincadeiras e das palavras divertidas.
Brincadeiras
à parte, ou parte delas, as letras partem de palavras, partem palavras, e
apartam-se em palavras. E para esta última parte, brincar de apartamento é o
que faz das letras grandes, mas, perigosas brincalhonas – o que é bem mais
sério que simplesmente moradoras. Tal preocupação foi verificada no edifício ao
sul da praça África, adjacências e descendências. Letras da palavra negrito compunham
aquelas primeiras edificações não condominadas. Sem brincadeira, quando letrideologias
do centro da cidade nortearam, navegando em palavras escravas, em direção aos negritos
casebres, iniciou-se uma situação temerosa e gramática: palavras itálicas, e
outras de regiões mais baixas, chegaram com bandeira branca. Porém, sua
inclinação mudara repentinamente, retrocedendo as hastes até que se mostraram palavras
arianamente oblíquas. A perigosa brincadeira dessas palavras e letras é a
origem dos apartamentos.
Palavras e
letras, quando brincam com seus significados sem brilharem, sem assobiarem, sem
metaforizar em música livre, sem servirem a livros relevantes, ou se servem
apenas a artigos de luxo e exclusividade, deixam de ser diversão. Apenas divergem
em vão, sem alcançarem os frutos da diversidade: os brinquedos construídos por
crianças e suas primeiras palavras e letras – puras e renováveis e infâncias.
Por Pedro Lísias