quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

HIPERTEXTO, HIPERPALAVRAS, HIPERLETRAS



Link de letras formam palavras e o texto são elas linkadas.
Letras salvam palavras em apuros, já estas aumentam, mas não inventam textos.

Uma sopa de letrinhas é quase um hipertexto. Pena que o paladar não é tão letrado assim, ao ponto de conseguir encontrar palavras nas colheradas. Para ser hipertexto a sopa precisaria ao menos possibilitar outros sabores sem a necessidade de acessar outros ingredientes e cumbucas. Dizem que não se toma sopa de garfo, mas ninguém acredita que o garfo é o talher mais semialfabetizado da paleta de utensílios da cozinha. Ler é a arte de deixar escorrer o que não é letra a fim de se formar palavras. Isso o garfo faz quase muito bem. Faria melhor se a sopa não guardasse teimosamente sua característica randômica.
Dentre as características impensadas da sopa que a torna um quase hipertexto está a de ser um dispositivo “gole screen”. Enquanto as letras, mesmo com garfo, ainda são protopalavras aleatórias, com a ação gole screen é possível acessar links que direcionam para conteúdos aparentemente não presentes na guarnição, isto é, palavras e textos completos: temperos variados (suas intensidades e sabores), hortaliças (cenoura, cebola, batata, etc.). Para cada item, uma vasta textualidade, cujos contextos contam sobre muitas outras sopas e reservas da memória.
Os hipertextos também contam grandes histórias de heróis e heroínas. São as hiperpalavras, com poderes tão elásticos quanto o poder dos links. Orangotango, por exemplo, é uma dessas hiperpalavras, e dentre suas hipercapacidades, está a de senso de localização, lembrando-se de caminhos pelos quais já passou numa floresta densa e complexa como um labirinto ou a rede mundial de computadores, a Internet. Outra hiperpalavra é Otorrinolaringologia, semelhante aos orangotangos pelo seu conhecimento de labirintos. Combate inquilinos presentes na orelha, no nariz ou na garganta. Em situações de congestão, nas interligações entre estas partes, a dispersão fica a cargo de três combatentes, sendo um viking, Oto; um sertanejo, Rino; e uma guerreira grega, Laringe. Este trio é popularmente conhecido como otorrino (desconsideram Laringe por ser mulher – hipermachismo!).
E quanto às hiperletras? Totalmente complicadas, as hiperletras dependem de alguns critérios para existirem. Precisam iniciar parágrafos, ser a primeira letra de um nome próprio, ou torcer para que as palavras sejam escritas em Caps Lock: QUANDO AS LETRAS SE TORNAM HIPERLETRAS, NEM OS HIPERTEXTOS NEM AS HIPERPALAVRAS CRESCEM TANTO QUANTO AS LETRAS. Até crescem, mas só se suas letras forem garrafais, tipo pet de 2,5 litros de refrigerante, cheia de gás – este é o poder das hiperletras, capaz de engordar quem bebe, come e lê.
Ler traz letras linkadas por cadeias longas de significanteotideos e significadóis. Ambos formam um hiperlink chamado signo. Signo é o gosto da sopa que não se lê apenas através das letras, mas principalmente pela interpretação gustativa do conceito ingrediente disponível por parte do cozinheiro e da memória do glutão.

Por Pedro Lísias

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