Link
de letras formam palavras e o texto são elas linkadas.
Letras
salvam palavras em apuros, já estas aumentam, mas não inventam textos.
Uma sopa
de letrinhas é quase um hipertexto. Pena que o paladar não é tão letrado assim,
ao ponto de conseguir encontrar palavras nas colheradas. Para ser hipertexto a
sopa precisaria ao menos possibilitar outros sabores sem a necessidade de
acessar outros ingredientes e cumbucas. Dizem que não se toma sopa de garfo,
mas ninguém acredita que o garfo é o talher mais semialfabetizado da paleta de
utensílios da cozinha. Ler é a arte de deixar escorrer o que não é letra a fim
de se formar palavras. Isso o garfo faz quase muito bem. Faria melhor se a sopa
não guardasse teimosamente sua característica randômica.
Dentre as
características impensadas da sopa que a torna um quase hipertexto está a de
ser um dispositivo “gole screen”. Enquanto as letras, mesmo com garfo, ainda
são protopalavras aleatórias, com a ação gole screen é possível acessar links
que direcionam para conteúdos aparentemente não presentes na guarnição, isto é,
palavras e textos completos: temperos variados (suas intensidades e sabores),
hortaliças (cenoura, cebola, batata, etc.). Para cada item, uma vasta
textualidade, cujos contextos contam sobre muitas outras sopas e reservas da
memória.
Os
hipertextos também contam grandes histórias de heróis e heroínas. São as
hiperpalavras, com poderes tão elásticos quanto o poder dos links. Orangotango,
por exemplo, é uma dessas hiperpalavras, e dentre suas hipercapacidades, está a
de senso de localização, lembrando-se de caminhos pelos quais já passou numa
floresta densa e complexa como um labirinto ou a rede mundial de computadores,
a Internet. Outra hiperpalavra é Otorrinolaringologia, semelhante aos
orangotangos pelo seu conhecimento de labirintos. Combate inquilinos presentes
na orelha, no nariz ou na garganta. Em situações de congestão, nas
interligações entre estas partes, a dispersão fica a cargo de três combatentes,
sendo um viking, Oto; um sertanejo, Rino; e uma guerreira grega, Laringe. Este
trio é popularmente conhecido como otorrino (desconsideram Laringe por ser
mulher – hipermachismo!).
E quanto
às hiperletras? Totalmente complicadas, as hiperletras dependem de alguns critérios
para existirem. Precisam iniciar parágrafos, ser a primeira letra de um nome
próprio, ou torcer para que as palavras sejam escritas em Caps Lock: QUANDO AS
LETRAS SE TORNAM HIPERLETRAS, NEM OS HIPERTEXTOS NEM AS HIPERPALAVRAS CRESCEM TANTO
QUANTO AS LETRAS. Até crescem, mas só se suas letras forem garrafais, tipo pet
de 2,5 litros de refrigerante, cheia de gás – este é o poder das hiperletras,
capaz de engordar quem bebe, come e lê.
Ler traz
letras linkadas por cadeias longas de significanteotideos e significadóis.
Ambos formam um hiperlink chamado signo. Signo é o gosto da sopa que não se lê
apenas através das letras, mas principalmente pela interpretação gustativa do
conceito ingrediente disponível por parte do cozinheiro e da memória do glutão.
Por Pedro Lísias
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