A gente não sabe dividir por que a gente não planta.
é verdade, temos apenas uma semente na mão, não há como
dividi-la.
Mas, e se plantarmos? Se cuidarmos dessa semente com
zelo e cultivá-la com amor?
também não podemos dividir as pessoas, pois assim
morrem.
Precisamos “cultivar humanos”!
Empurrando
a realidade: uma geração que acha que vai mudar as coisas com um clique.
Desqueremos uns aos outros e não fazemos ideia do que fazer com uma semente, a
não ser mantê-la seca em nossa lógica individual guardiã da desigualdade.
Muitos
confundem experimentar com saber – quando saber é atualmente muito mais
recorrer a recursos “wikissapienciais”, apelando para “diz a internet”, algo do
tipo “melhor resposta escolhida pelo autor da pergunta”, e só.
Para a
sociedade que sofre internet como hemorragia generalizada, Deus sabe de todas
as cosias e o Google é fonte de tudo experimentado. Como se, ao saber a
respeito daquilo experienciado, estivéssemos absorvendo as experiências, e
agora afirmamos ser donos delas (favorecendo consensualizar em grupos, como algo
vivenciado de fato e em comum).
Assim as
experiências de Deus se resumem a downloads
de aplicativos místicos, cujo processo de instalação ignora o poder de
permissão do administrador, e logo se inicia: processando unção do fogo santo à
7% ... 20% ... 37% ... “espírito instalado com sucesso” (fim da experiência: deseja
sair* ou concluir?). O problema é que sabemos que ao baixarmos arquivos
misteriosos podemos estar abrindo as portas para maliciosos executáveis – malware. *Inevitavelmente uma barra de
tarefas já lhe foi instalada.
Acha-se estar
com a alma angustiada, quando o sangue e tudo que é de fato vida e viver,
empobrecem-se por não terem contato com Deus, experimentando-o; mas o corpo vai
espiritualizando-se e espremendo-se num longo corredor, ora são gritos, quando
não são mãos que recriam a fantasia do desespero dos desesperados que creem
abençoar uns aos outros. Quem está desesperado aí? Aviso: as portas são
dúvidas!
Estamos escorregando
em óleo quente? Ungido no forno das casas religiosas históricas, que se omitem,
dando as costas para a multicultura que tem a semente na mão e não sabe onde
nem como plantá-la – talvez nem para que serve.
Ser sal
grosso e farol xenon faz o contrário do que anuncia a Boa Nova: machuca, salga
de mais, ofusca e cega. As direções opostas dos cristianismos colidem com força
ao ponto de dividirem paredes, infelizmente entre elas: a semente na mão.
E a
pessoa, gente humana? Eles e Elas estão fazendo papel de tijolo: paredes de
religião que se erguem administrativamente sem qualquer cuidado pastoral, ou
janelas que ao menos deem sentido à liberdade nas promessas de nossas Bíblias
fechadas que ainda achamos que estão nas mãos de Abraão: ambas ilusão.
Continua
seca. A semente descuidada tem como destino ser plantada.
Estamos
divididos porque não sabemos dividir. Morremos por insistir em dividir o indivisível.
Brigas acontecem quando se está junto não querendo estar; a paz não é ser junto
sem querer. Então, o que tem a ver: a semente e saber dividir, com
espiritualidade?
Não é
simples. Mas é simplesmente plantar.
Não
podemos dividir uma semente, pois assim ela se acaba, não servirá. Porém,
experimentando Deus, o dono da plantação, podemos até escolher a terra (o
melhor é conhecer a escolhida pelo dono, nosso Companheiro, Parceiro e Amigo),
plantar a semente e cuidar dela, para que, tendo crescido e amadurecido seja
dividida sem morrer. Saber dividir não se faz com um clique, não é uma resposta
qualquer dada pela internet ou pelo fórum dos “acho que sim, pode ser que não,
mas o mais certo é que talvez”...
Saber
dividir é experimentar Deus ao cuidar da semente que partilha amor, do plantio
à colheita. É dar oportunidade de a semente gerar novas sementes para que outros,
aprendendo a esperar em Deus, vão cuidar também: cultivando queridos e
queridas. Uma ceara comunitária que não depende de irrigações fantásticas nem
de apelos emocionais, pois os rios de bênçãos são antes alimentados por
córregozinhos de carinho e cuidado. Tendo ainda, junto ao dono da plantação,
ido à nascente, aquela fonte que não para nunca de minar, pois está protegida
pela ação trinitária que a cerca fielmente de graça – e o Verbo se fez carne e
habita entre nós (cf. Jo 1.14).
Borramos
os desenhos das crianças que desenhavam sementes, plantas, flores, frutífera
plantação. Demos a elas canções de pisar, inimigos para ninar, e estamos bem
achando que isso é uma semente de esperança. Preferimos ensinar uma criança a
plantar ou é mais fácil ligar a televisão e deixá-las ver uma galinha cantar?
Pedagogicamente...
Petulância nossa achar que estamos fazendo muito bem feito. Será que estamos
descobrindo que somos pedantes? “Que ou o que se exprime exibindo conhecimentos
que não possui” (Dicio. Houaiss). Não juramos em nome de Deus. Temos humildade
que transborda, assim nem precisamos dizer que somos humildes, mas para não
parecermos egoístas: “tá amarrado no sangue de Jesus”.
Rede
horrível de doutrinação. Espiritualidade não se confina numa explosão momentânea,
não se trata de se empenhar em fazer a manutenção de perseguir a felicidade ou,
se não sentir novamente um arrepio, “tá frio da presença do Senhor”.
Espiritualidade não é um produto ou um círculo que riscamos no chão para dentro
dele nos contermos fingindo não haver aí solidão. Espiritualidade não uma
corrente de oração para espantar espanto. Nem é espiritualidade evitar se
defrontar com tudo que não é espiritualidade e que está diante de nós.
Espiritualidade não é um território conquistado, nele bandeira fincada, e uma
barraca armada para receber o Espírito.
Espiritualidade
é muito mais uma massa de bolo da receita que sempre melhoramos, trocando
ingredientes, sem mudar o essencial. É experimentar sentindo cheiro,
consistência, imaginando um pouco o sabor que nunca é totalmente o mesmo. Tanto
é que não se faz bolo de cenoura disfarçando com abóbora dada semelhança da cor.
Talvez se substitua o trigo, mas algo deve dar estrutura e liga. Para os mais lights corta o açúcar – se bem que o
adocicado da cenoura sugere um experimentar de Deus que exige mais
sensibilidade ao paladar (às vezes tão difícil de agradar).
Por isso
espiritualidade é encontro. Ingredientes que se encontram. Um bolo sozinho é só
um bolo; dividido, é cultivo humano: partilha. É natural fazer sozinho um bolo.
Comê-lo sozinho não é espiritualidade, pois é como a semente que não foi
plantada – sem oportunidade de frutificar e servir ao cultivo de queridos,
frutos que geram frutos. Um bolo sozinho é individualismo e depressão;
partilhado é alegria (divida um bolo de caçarola ao meio e terá dois sorrisos).
Espiritualidade:
saber dividir a semente sem dividi-la. Estar com Deus sozinho quando estiver
sozinho – pois não podemos dividir as pessoas, pois assim morrem. Quando
estamos juntos cultivados com Deus, por não podermos nos dividir, dividimos o
que temos e o que experimentamos de Deus quando estávamos fisicamente sozinhos
ou num momento de confissão. Qualquer tentativa de divisão, seja em alma, corpo
e espírito, é que estamos admitindo a fissão: um desejo indesejável, passional,
destrutivo, irracional, impaciente, inconsequente...
Espiritualidade
é construir com a criança um espírito superior, é o não sem que o proibir vire
impossibilidade: morte da diversão segura pela alegria. Sim um sim para
incentivar alternativas para a vida melhor, diálogo com bom trato, tato e
estorinhas inventadas que imitam a vida melhor – essa semente de esperança que
é a própria esperança! É um ir lá ver e experimentar ainda ouvindo: tá frio, tá
morno, quase, agora tá ficando quente... achou! Se há um muro, é possível dar a
volta sem se machucar? Assim se alcança a bola que caiu do lado de lá.
Espiritualidade
é descoberta, e isso as crianças nos ensinam aprendendo conosco limites e
acessos, estar junto sem sequestro, construindo um mapa-múndi de tudo que não
se sabe, mas se quer descobrir sem invadir os mais convidativos jardins e suas
janelas no alto de pé de mangas, pitangas e outras travessuras de crianças –
quem não almeja um pequeno armazém para estocar coisas que nos interessam no
chão? Moedas antigas, objetos quase mais curiosos que nós, pedaços de fio,
barbante de telefone e caixas de papelão. E o que são travessuras? São os
planos de criança em conquistar a realização de sonhos, brincadeiras, conversas
com bichinhos do mato, com liberdade para ir traindo, aos poucos, sua
ingenuidade sem cortar o coração, na tentativa constante de criar a condição de
uma nova e preciosa amizade.
“E Deus
viu tudo quanto havia feito, e era muito bom. Houve uma tarde e uma manhã: o
sexto dia.” (Gn 2.31) Veio o fim de semana, e novamente assentados e
levantados, liturgicamente incomodados, faríamos a mesma pergunta que o curioso
Moisés: “Qual é o seu nome?” E o fórum “melhor resposta escolhida pelo Autor da
Vida” responde: “EU SOU O QUE SOU, SEREI O QUE SEREI, VOU SER O QUE VOU SER”
(Êx 3. 14).
A semente
indivisível partilhável está em nossa liberdade, cujas mãos são extensão do
coração e do intelecto, interligados pela aliança sangue-suor, nossa eterna
esperança de plantar.
Se toque, não clique, abrace e descubra!
Criança madura, esperança, travessura!
Sotaque de verso, espiritualidade sem culpa!
Semente, figura, verdade futura!
Por Pedro Lísias
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