A gente vai crescendo e se mapeando.
Conhecemos
bem nossas ruas e quais têm problema de iluminação. No mapa da gente, as
cidades são dinâmicas, mudam de lugar e as estradas de direção, sem ter que nada
redesenhar.
No
mapeamento individual temos sempre cuidado com as esquinas, pois são o
contraste das curvas que fazemos com maior atenção. Se as plaquetas vermelhas fazem
com que não pare, é sinal de queda de imunidade contra colisões e outras
moléstias.
Somos
cheios de conhecimentos válidos para antigamente. Guardamos traços
cartográficos de muita coisa em muita gente: mapas arquivados. Lugares que não
existem mais, aterros e florestas virgens, quase atlânticas.
Uma
egografia poderia revelar mapas do nosso subterrâneo. Esgotaríamos sem esgotar,
poços, nossas cavernas, estalactites e estalagmites, subconsciente pingando:
uma gota indo outra voltando, da mente ao coração.
Temos
feito pouco périplo[1] de
nossas margens oceânicas. Para ao menos mapearmos o litoral em nossas
cartografias, uma navegação de cabotagem suas linhas alcançaria. Mas, para
enriquecer em além mar, para outros mapas de amizade conquistar, um guia
marítimo detalhando os lugares por onde melhor passar dão segurança à nossa
costa: região não muito fácil de se olhar.
Um mapa de
cabeça para baixo ou meridianamente errado, pode nos fazer acreditar que somos
orientais ou algum povo encabulado com registros geográficos e atrasados para
seus horários de verão nada regimentais. A inversão do mapa poderia acabar
desmaiando espanhóis, e criando outros lençóis à caminho de um mundo novo, tais
foram os códices ignorados pelos algozes cabedais!
Mas, como
cada mapa guarda uma memória muito sentimental, quase regional, os continentes
são desenhados distantes, ora separam oceanos ora são separados por eles. Daí a
importância dos mapas para a navegação. Tanto é assim, que para conhecer terras
com geografias de sentimento seco, onde crescem desertos, é preciso um mapa que,
tal qual para atravessar o mar, possa se contar com as estrelas: cintilosas
pequenas pintas no alto da cabeça.
Para o
mapa de som inventou-se a sonografia – da qual tira proveito cochilo. Como este
mapa desconta atenção, é necessário desenvolver um onirógrafo, capaz de mapear
os sonhos e as fantasias. Imagine uma geografia de relevo sonhado que releve a
fantasia e a verdade como uma só realidade? Mapa que é mas não é! No lugar da
indicação de cidades, pontilham reloginhos despertadores, cercados para contar
ovelhas e nuvens destinadas a grilos cantores. No lugar de trem e trilhos de
ferro, amendoins ferrolhados feitos vagões sobre largos trilhos de balcões,
cujas estações das quais partem, são breves amontoados desses frutos enfileirados,
que antes faziam par, trio e outras composições dentro de vagens vans.
O mapa de
fim tem caminhos que levam para lugares penhascosos, mais longe que colina,
mais que morro, com passagens estreitas e pinguelas. Mapa de um mundo cuja
janela é ou o céu ou o chão, e em ambos a indicação no mapa diz afundar. Esse
catálogo, dos gostos e raízes que ficaram, trata do mapeamento interrompido.
Rompido, por já ter viciado dobras no mapa de tantos anos, o que um leve
descuido faz virar pedaços disputados. Inter, por permanecer, ainda como mapa,
digno da exploração descendente, néticas, vindouras, que se aventuram a descobrir
tesouros guardados ternamente como avia[2] avus[3]
queria.
Floreografia,
um quadro sinóptico aquarelado cujas pétalas atraem beija-flores e homens
românticos. Esse cardápio vem acompanhado de uma cartografia de chás, ervas e
outros matos. É um mapa quadriculado, com pistas vermelhas perpassadas por
brancas, um xadrez de palha e toalha de cesto, tudo indicado no caminho de
migalhas deixadas nas preliminares brincadeiras de pique. Alguns arranjos
florais denotam áreas de encontro das flores e lugares onde se encontram mel,
orquídeas e amoras. O mapa mostra onde achar geleias reais, e perfume de
torradas, fontes panificadas e outras feiras penduradas à beira das estradas.
Quando a
gente cicatriza, aquela fita aderida que rejunta o mapa da gente, algumas cidades
ficam onde não estava antes, e os caminhos se refazem em retas meio curvas e
curvas meio retas. As distâncias são as mesmas, o máximo que acontece é quando
nas extremidades surgem caminhos com subida – aparecem as orelhas. Curiosamente
as quatro pontas se buscam, efeito do enrolado mapa de gente. Ao se querer que
se abram, querem fechar e, tentar mantê-los fechados querem se abrir, como se
tivessem engolido molas ou fingem língua de borboletas, língua de sogra ou
qualquer outro brinquedo desenhado na mente.
Tem ser
tão mapa que espalha seu sotaque na brisa parada da rosa dos ventos. Esperam
que molhe a cartilha rachada que revela, quase nunca, ao invés de pegadas
jumentas, cardumes correntes e correntezas. Necessidade de um pluviomapa, ao
menos um gotálago, que preserve alguns milímetros de chuva na pequena lista de
pedidos pendurados no terço entre a mercearia e a igrejinha. Levanta poeira no
sopro sobre o mapa na gaveta guardado, como se conservado de um dia molhado.
Nordeste precipitação de um mapa esperado.
É o mapa
crescido, mapa da vida. A gente vai se mapeando e acrescentando lugares, que já
existiam, e passaram a existir na gente. São as plantas, dos pés, das mãos,
mostrando os caminhos que afastam da cidade solidão. Chegamos à grande
metrópole, ou no pacato pequeno sítio, para ambos os quais é um segredo encontrar.
Escolhido lugar de morar, diversidade mapeada de gente que desenha caçando
tesouros, família coleção cartográfica de quem faz da vida seu lar.
Nosso mapa
é a gente.
Por Pedro Lísias
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