quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Mapeagente



A gente vai crescendo e se mapeando.

Conhecemos bem nossas ruas e quais têm problema de iluminação. No mapa da gente, as cidades são dinâmicas, mudam de lugar e as estradas de direção, sem ter que nada redesenhar.
No mapeamento individual temos sempre cuidado com as esquinas, pois são o contraste das curvas que fazemos com maior atenção. Se as plaquetas vermelhas fazem com que não pare, é sinal de queda de imunidade contra colisões e outras moléstias.
Somos cheios de conhecimentos válidos para antigamente. Guardamos traços cartográficos de muita coisa em muita gente: mapas arquivados. Lugares que não existem mais, aterros e florestas virgens, quase atlânticas.
Uma egografia poderia revelar mapas do nosso subterrâneo. Esgotaríamos sem esgotar, poços, nossas cavernas, estalactites e estalagmites, subconsciente pingando: uma gota indo outra voltando, da mente ao coração.
Temos feito pouco périplo[1] de nossas margens oceânicas. Para ao menos mapearmos o litoral em nossas cartografias, uma navegação de cabotagem suas linhas alcançaria. Mas, para enriquecer em além mar, para outros mapas de amizade conquistar, um guia marítimo detalhando os lugares por onde melhor passar dão segurança à nossa costa: região não muito fácil de se olhar.
Um mapa de cabeça para baixo ou meridianamente errado, pode nos fazer acreditar que somos orientais ou algum povo encabulado com registros geográficos e atrasados para seus horários de verão nada regimentais. A inversão do mapa poderia acabar desmaiando espanhóis, e criando outros lençóis à caminho de um mundo novo, tais foram os códices ignorados pelos algozes cabedais!
Mas, como cada mapa guarda uma memória muito sentimental, quase regional, os continentes são desenhados distantes, ora separam oceanos ora são separados por eles. Daí a importância dos mapas para a navegação. Tanto é assim, que para conhecer terras com geografias de sentimento seco, onde crescem desertos, é preciso um mapa que, tal qual para atravessar o mar, possa se contar com as estrelas: cintilosas pequenas pintas no alto da cabeça.
Para o mapa de som inventou-se a sonografia – da qual tira proveito cochilo. Como este mapa desconta atenção, é necessário desenvolver um onirógrafo, capaz de mapear os sonhos e as fantasias. Imagine uma geografia de relevo sonhado que releve a fantasia e a verdade como uma só realidade? Mapa que é mas não é! No lugar da indicação de cidades, pontilham reloginhos despertadores, cercados para contar ovelhas e nuvens destinadas a grilos cantores. No lugar de trem e trilhos de ferro, amendoins ferrolhados feitos vagões sobre largos trilhos de balcões, cujas estações das quais partem, são breves amontoados desses frutos enfileirados, que antes faziam par, trio e outras composições dentro de vagens vans.
O mapa de fim tem caminhos que levam para lugares penhascosos, mais longe que colina, mais que morro, com passagens estreitas e pinguelas. Mapa de um mundo cuja janela é ou o céu ou o chão, e em ambos a indicação no mapa diz afundar. Esse catálogo, dos gostos e raízes que ficaram, trata do mapeamento interrompido. Rompido, por já ter viciado dobras no mapa de tantos anos, o que um leve descuido faz virar pedaços disputados. Inter, por permanecer, ainda como mapa, digno da exploração descendente, néticas, vindouras, que se aventuram a descobrir tesouros guardados ternamente como avia[2] avus[3] queria.
Floreografia, um quadro sinóptico aquarelado cujas pétalas atraem beija-flores e homens românticos. Esse cardápio vem acompanhado de uma cartografia de chás, ervas e outros matos. É um mapa quadriculado, com pistas vermelhas perpassadas por brancas, um xadrez de palha e toalha de cesto, tudo indicado no caminho de migalhas deixadas nas preliminares brincadeiras de pique. Alguns arranjos florais denotam áreas de encontro das flores e lugares onde se encontram mel, orquídeas e amoras. O mapa mostra onde achar geleias reais, e perfume de torradas, fontes panificadas e outras feiras penduradas à beira das estradas.
Quando a gente cicatriza, aquela fita aderida que rejunta o mapa da gente, algumas cidades ficam onde não estava antes, e os caminhos se refazem em retas meio curvas e curvas meio retas. As distâncias são as mesmas, o máximo que acontece é quando nas extremidades surgem caminhos com subida – aparecem as orelhas. Curiosamente as quatro pontas se buscam, efeito do enrolado mapa de gente. Ao se querer que se abram, querem fechar e, tentar mantê-los fechados querem se abrir, como se tivessem engolido molas ou fingem língua de borboletas, língua de sogra ou qualquer outro brinquedo desenhado na mente.
Tem ser tão mapa que espalha seu sotaque na brisa parada da rosa dos ventos. Esperam que molhe a cartilha rachada que revela, quase nunca, ao invés de pegadas jumentas, cardumes correntes e correntezas. Necessidade de um pluviomapa, ao menos um gotálago, que preserve alguns milímetros de chuva na pequena lista de pedidos pendurados no terço entre a mercearia e a igrejinha. Levanta poeira no sopro sobre o mapa na gaveta guardado, como se conservado de um dia molhado. Nordeste precipitação de um mapa esperado.
É o mapa crescido, mapa da vida. A gente vai se mapeando e acrescentando lugares, que já existiam, e passaram a existir na gente. São as plantas, dos pés, das mãos, mostrando os caminhos que afastam da cidade solidão. Chegamos à grande metrópole, ou no pacato pequeno sítio, para ambos os quais é um segredo encontrar. Escolhido lugar de morar, diversidade mapeada de gente que desenha caçando tesouros, família coleção cartográfica de quem faz da vida seu lar.
Nosso mapa é a gente.


Por Pedro Lísias


[1] Registro, em sequência, dos portos e pontos geográficos costeiros. Circunavegação. Navegação de cabotagem.
[2] Avó.
[3] Avô

Nenhum comentário:

Postar um comentário