Sem
som, as palavras não são nada. Sem o silêncio, não chegam a ser pensamento.
Escritas,
as palavras se deformam, assumindo letras, combinações limitadas.
Sibilam
como pequeninas profecias daquilo que podem vir a ser.
Dormem
se não as lemos. Se apagam se não as entendemos.
As
palavras testemunham lembranças mártires do futuro, letras de vanguarda. Porém,
antes, se sorteiam na mente. Se adiantam as palavras, criam nuvens pesadas que
adiam aquelas mais calmas, encobertas, noutra linha. Quando estridentemente
discretas, possibilitam entrelinhas impregnadas de tudo que poderiam dizer com
pequenas mudanças, como fazer de um erre um pê tirando o pé; mas, só se forem
letras adultas, já crescidas. Têm que estar ao menos versaletes, todas fingindo
maiúsculas.
Como uma
esteira rolante, ou um brinquedo de criança, as letras se confundem numa dança
que se lança que cansa se, ao invés, formarem palavras que falem das
profundezas do mar ou de uma íngreme ladeira sem ponto nem vírgula sem fim ou qualquer
coisa que pare desenrolando pausa que para o ar alcançar ajude a respirar.
Mais que
um mergulho alçado ao céu, as palavras dotadas de barbatanas e de asas
batizadas, costumam permear, infiltrar, transpor até se casarem com ideias
imprevistas, pouco pensadas, ainda que até satisfatoriamente pousadas. Outras
têm contratos idealizados, não caem bem pela pureza que guardavam, mas por não
terem escolha, escolhidas, são novamente geradas em outros significados que
interessam às letras hiperativas das palavras imperativas que fazem das ideias
fortes motores de porquês alienados.
Ainda que
belas e bem povoadas, grandes palavras às vezes não dizem quase nada. São
muitas letras, repetidas, imitadas, sem qualquer genuinidade. Talvez sirvam
para compor piadas, aterrorizando os lerdos, impacientes como gagos fanhos
ansiosos. Ou, simplesmente para não serem entendidas mesmo. Tão grandes e tão
limitadas.
Quando
muito fluidas favorecem a fuga para leituras mais rápidas, saber de imediato.
Sabem bem mais as palavras que passam sorrindo “se fazendo” para um olhar
descontraído. Brilham e fazem girar as ideias sem empecilhos. Palavras sem
barreiras parecem ter nascido todas no mesmo lugar, numa história distante.
Talvez não de uma mesma mãe, mas quem sabe de uma tia-avó que mora na mesma
estante?
Muitas
letras gostam de ser suco. Para vitaminas, às vezes se embananam. Mas isso só
acontece quando se misturam com outra palavra, originada nas letras do que
gostam os filhotes de vacas.
Existem
letras de vez, um dia formarão palavras maduras, como do bê-á-bá ao abacate. No
entanto, quando se tratam das goiabas, mais importa se os muros ajudam fazer as
pernas se agigantarem, que se são goiabinhas verde-limão-verde, palavrinha de
casca grossa e polpa dura, mas que valem enganar a altura. Outras palavras têm
letras encaroçadas. Espanta a palavrinha de dois caroços só, “iá”, num tem? Palavra miudinha e encaroçada e é quase tão
grande quanto pequenininha, cheia de letras juntinhas.
E as
palavras de letras moles, líquidas? Vai tudo pelo ralo ou viram gelatinas. Ressoam,
vibram como um lago à bolonhesa. Letras macarronadas, palavras almondegas,
ideias suculentamente letradas. As letras costumam temperar palavras sem sal,
sem doce, descoloridas, sem sabor e odor.
Palavra
banhada de letras é muito usada para sabonete. Por isso as letras dos perfumes
expressam odores em palavras cheirosas, pois são tão mais livres e desgarradas
de seus frascos, que os tons e letras fragrantes se destacam.
Letras
engenhosas formam engenhocas, palavras que costumam traduzir gambiarras, caracteres
improvisados, ou artefatos capazes de compor tipos móveis. Letras impressas
como que um descarregamento de areia fina, assentadas por palavras tratoras,
que rolam fixando grupos de letras. Uma marcha uniforme parafraseada pela
palavra parafuso, que enrosca letras num sentido e desenroscam noutra direção,
mas tudo igualmente em ordem.
Letras
bambas tendem a fazer as palavras emudecerem, acontece muito quando se come um
esse e o plural se esconde. Igual os Jabuti. Outras vezes aquele esse se
disfarça de erre, mermo que este não seja o seu lugar.
Em defesa
das letras, as palavras buscam preservar seus significados. Para que os signos
ficados mantenham o sentido, as palavras procuram se tornar coisa popular. As
letras da cultura são exemplo disso. Interessante que as letras fazem da
palavra disfarce.
As letras
de carimbos são escravas isoladas, formam sempre a mesma palavra, de vez em
quando, meio apagadas. Palavras que se borram, letras pressionadas, podem dar
ideia de despacho.
Algumas
letras viajam encartadas em palavras selecionadas. Cruzam oceanos de céus
estrelados, encarando até turbulências e grandes ondas sem que uma letra sequer
saia de seu lugar: letras na palavra afiveladas. Cheias de sentimento, as
palavras das letras mensageiras, vão como estrangeiras para cumprir sua missão
de palavra e destino que mudarão.
O mundo
das palavras é imenso como as páginas das reservas da imaginação, já as letras
fazem das palavras seus muitos mundos, infinita constelação.
Palavras e
Letras, que bela invenção.
Por
Pedro Lísias
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