quarta-feira, 20 de março de 2019

Jádulto: um ensaio provocativo da nossa imaturidade adulta


Jádulto: um ensaio provocativo da nossa imaturidade adulta
Pedro Lísias, 20/03/2019


De repente, venho tendo uma leve sensação daquilo que eram pequenos sintomas de criança. Um salto dos 9 que foi beirar os 30, 68 anos. Varia de quem em quem. Imaturo à maduro. Independência da mediação: irmãos que dialogam não vivem na contramão.
Uma leve sensação ‘de que’ já sou adulto...
Diria a vós, recobrando as experiências de irmãos na fé, Paulo e Pedro, que vossos pais lembrar-vos-iam da importância da paz (Gl 2.11-14 e At 15.7-11). Já alguns marcos ficam distantes mais de meio século da reconciliação: como se ainda aos 9 anos (o jubileu, ano do perdão, foi diminuindo a frequência que ocorria até quase inexistir: cf. Lv 25.8ss). A infantilidade, a vingança, a ganancia, a dívida e o ódio crescem e se fortalecem quanto menos há oportunidade de mútuo perdão.
Uma leve sensação ‘de que’ já sou adulto...
Pressupor que seria ainda mais covarde na rua, faz da casa um parquinho para uma desavença que desemboca em “te pego na saída/ você vai ver/ vou falar com a minha mãe...”. Pátio inconsequente, a rua te espera sem saber se você sabe atravessá-la. Era essa a saída ordenada pela porta, silenciosamente.
Muitas famílias se esqueceram de declarar falência desde que não perceberam que abandonaram a mediação do Espírito-fortaleza. Falidas, insistem em relações fraternas que não o são, pois, suas partes não se reconhecem irmanadas. O que seria exercício dialogal ganhou aspecto ou valor venal. Irmãos e irmãs por indenização. O interesse condicional.
A maioria dos nossos relacionamentos têm se caracterizado pela indexação. Nos relacionamos em forma de índice, classificação, uma hierarquia de interesses sistemáticos que podem mudar de nível de acordo com critérios subjetivos de cada um sob influência do disseminado egoísmo em nós encarnado.
Será que estamos cultivando bons relacionamentos ou inflacionando nossos desencontros?
Assim como o trânsito é espelho de uma sociedade, a internet também é reflexo do nosso comportamento, e o reforça ainda mais, pois, faz de nós publicidade, infla o ego positiva ou negativamente. Internet não tem filtro, já que nós também não nos preocupamos em filtrar muita coisa. Vale para o cuidado que temos com os rins, fígado, medula e demais órgãos. Ingerimos veneno (agrotóxicos), drogas (açúcar) e todo excesso de peso do sistema que nos rege – sobrecarregados e passivos. Essa falta de filtro é, ainda, nosso despreparo para lidar com frustrações, elemento presente na realidade concreta da vida. Momo não transtorna somente crianças. Momo é uma das faces da nossa porosidade demasiada simultaneamente apoiada pela nossa antiaderência, intolerância excessiva. Apesar de fluidos/líquidos, também estamos exaustivamente sólidos, lisos.
Se você não sabe o que é o imprescindível FILTRO da vida, vou lhe propor conhece-lo ou reconhece-lo no evangelho de Mateus Mt 11.25-30 (NTLH):

25 Naquela ocasião Jesus disse: — Ó Pai, Senhor do céu e da terra, eu te agradeço porque tens mostrado às pessoas sem instrução aquilo que escondeste dos sábios e dos instruídos! 26 Sim, ó Pai, tu tiveste prazer em fazer isso. 27 — O meu Pai me deu todas as coisas. Ninguém sabe quem é o Filho, a não ser o Pai; e ninguém sabe quem é o Pai, a não ser o Filho e também aqueles a quem o Filho quiser mostrar quem o Pai é. 28 — Venham a mim, todos vocês que estão cansados de carregar as suas pesadas cargas, e eu lhes darei descanso. 29 Sejam meus seguidores e aprendam comigo porque sou bondoso e tenho um coração humilde; e vocês encontrarão descanso. 30 Os deveres que eu exijo de vocês são fáceis, e a carga que eu ponho sobre vocês é leve.

Se você não tem filtro, já adulto, não é que esteja ausente. Seu filtro está escondido. Por algum motivo você se acha autossuficiente (sábio e instruído sem sê-los). Sem filtro, como ensinar as crianças a lidarem com a realidade? Qual o contrário de transtornado(a)? Sereno, tranquilo, ameno, repousado, comedido, suave, brando, delicado, remansado, despreocupado, descansado, imperturbado, sossegado, calmo, pacífico.
Cultivar relacionamentos com estas características, procurar se comportar assim, é perfil de quem assume o filtro vital desempenhado por Jesus Cristo.
Descansar e aliviar as cargas é compartilhar as realizações e dificuldades do dia-a-dia, sempre atentos evitando se deixar ser capturado pela hostilidade que domina os canais solitários, estritamente individuais e individualizantes (redes “sociais”, YouTube Kids), pois é neles que nos perdemos uns aos outros. Não é sábio instruir crianças e adultos a ver o mundo solitariamente, pois é aí que a Momo aparece como em Bird Box[1]. Sábio e instrutivo é ver o mundo de mãos dadas, abraçados, em paz: “O amor e a fidelidade se encontrarão; a justiça e a paz se beijarão.” (Sl 85.10, NVI).

“Que o Senhor os abençoe e os guarde; que o Senhor os trate com bondade e misericórdia; que o Senhor olhe para vocês com amor e lhes dê a paz.” (Nm 6.24-26, NTLH)


[1] Bird Box é um filme thriller pós-apocalíptico americano de 2018, dirigido por Susanne Bier, escrito por Eric Heisserer e baseado no livro homônimo de 2014 de Josh Malerman. Disponível na WEB.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

A SEM CRASE É PERSONAGEM



Foi a praia
Assistiu a TV

Acém crase é uma carne louca servida à mesa de segunda a sexta em localidades anglo-saxônicas.
Como às vezes não fazem sentido, crases sempre se embolam em metalinguagens e necessariamente implicam metáforas. Anáfora afora, os aforismos dos acrasiamentos são imbricações que seguem o método da dobradiça: são pêndulos horizontais que fecham de um lado para abrirem-se de outro, sublinhando, às maçanetas, buracos em recortes que são, outrossim, receptáculos de chaves. Crases e fechaduras têm tênue ligação.
Essa mimética combinação reflete sua figuração: crases são chaves, e estas, vices às avessas. Ninguém sabe bem o que acontece no escurinho das fechaduras. Mas, de leitura em leitura, de escrita à escrita, as chaves trancam e destrancam metáforas, acentuadas ou não, no breu da imaginação. Ou melhor, esse nobre quarto cômodo cerebral, sem crase está escuro, e depende da chave para abrir-se; após isso, luz! Revolve a imaginação, mente e verdade, como um interruptor irrompido, um mundo lizado, tecidos, meadas de lã, na tinta em que estão mergulhados. Crase à tinta, mais que pinta, um traço inclinado à revolta!
A com crase é um soldadinho revoltado, pois se empunhasse sua espadinha à frente como área, árvore e água, não personificaria tão bem a contradição. Sem crase, assume-se mais original, versátil; simultaneidade torna-se seu forte: como a areia que foi a praia, e agora é integrante de edificações ou barreiras de vento. Também, destituído de crase, tanto vê como ajuda um pobre aparelho de televisão marginal.
À areia, praia.
À visão, pobre!
Por Pedro Lísias