6º Domingo no Tempo Comum (IPU CG), Ano A | Dt 30.15-20; Sl 119.1-8; 1 Co 3.1-9; Mt 5.21-37
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Rev. Pedro Lísias – 16/02/2020
FELICIDADE:
Homens Precisam Despatriarcalizar-se[1]
fraternidade – sororidade – humilde-honestidade
INTRODUÇÃO
O Evangelho deste 6º domingo no tempo comum é
todo um conjunto de desafios. Compreende um mergulho na época de Jesus cuja emergência[2]
acontece agora. Por este motivo, cada parte deve ser analisada com
interdependência, pois a perícope é um dos blocos que compõem o “sermão do
monte”. As partes relacionam-se entre si e com o grande sermão.
DESENVOLVIMENTO
Felizes
as pessoas que trabalham pela paz
v.21-26 Apenas
não matar dá aval para todo tipo de
violência. Jesus ensina a não cometer nem mesmo a menor das violências – ou
melhor, não cometer violência alguma. Na Grécia clássica o termo idiota significa aquele que se fecha em
si. Só pensa no próprio umbigo. O contrário, o político, se abre para o conjunto, participa da vida da comunidade
e se interessa pelo mundo como um todo. Então, o que Jesus quer dizer no verso
22 de Mateus 5 (“E quem chamar o seu
irmão de idiota estará em perigo de ir para o fogo do inferno”)?
Numa relação fraterna entende-se que todos
cooperam para o bem de todos, com amor recíproco – ação política original.
Portanto, chamar seu companheiro de caminhada de idiota é um desejo de ruina da
comunidade fraternal. É uma falta grave, pois coloca em dúvida o
comprometimento pessoal e a fé do membro fraterno. O ódio, a raiva, o insulto
são sentimentos e atitudes contra Deus, pois quem ofertar algo a Deus, tendo o
coração cheio de sentimentos violentos, estará ofertando violência a Deus. Pois,
ninguém oferta algo sem levar a si próprio ao altar. Jesus se ofertou por
inteiro e sem qualquer violência no coração para pagar pela violência cultivada
por toda a humanidade. Neste sentido, Jesus teve a iniciativa de buscar a paz
ainda que não tivesse culpa alguma em relação às acusações que fizeram contra
ele. Quem não tem violência no coração, mas é acusado pelo(a) irmão(ã) de algo
que possa ter feito, precisa assumir a iniciativa pela paz e ganhar o(a) irmão(ã)
cujo coração é sondado pelo Espírito Santo nesse diálogo de perdão. Desse modo,
a oferta é completamente agradável a Deus, pois aí não há ligação alguma com
qualquer violência nas relações que temos uns com os outros.
Felizes
os homens que têm o coração puro
v.27-30 Quem
tem a mínima intenção de objetificar uma mulher faz do próprio coração uma
fonte de maldade e desagrado a Deus. Ninguém pode “possuir” ninguém. Tendo em
mente que Jesus primeiramente está discutindo a Lei, o adultério, nos termos jurídicos,
é uma violação da regra de fidelidade conjugal prevista em contrato. Jesus
insiste (instrui) que as pessoas arranquem do coração esse desejo de possessão
do outro. Isso é demoníaco, tanto é que Jesus expulsa demônios para que as
pessoas vivam plenamente livres, para fazerem escolhas assumindo elas próprias
as consequências de suas preferências sem a interferência e controle de
terceiros.
Cada um tem competência para eliminar do seu
modo de viver aquilo que o aproxima do inferno (da injustiça, da morte) e
tornar seu coração puro.
Felizes
as pessoas que têm fome e sede de justiça
v.31-32 “Felizes
as mulheres...”. Jesus incentiva a sororidade (feminina) e faz com que os
homens assumam o peso da Lei a respeito do adultério: antes a mulher era sumariamente
culpada. Jesus, no entanto, interpreta a Lei em seu sentido completo, isto é,
com justiça prioritária às mulheres. A Lei mantém a mulher como um objeto que,
em caso de “devolução” ou “descarte”, deve ser acompanhado da documentação de
rejeição no qual constem os termos de desistência da aquisição. Jesus aprofunda
na interpretação legal, e vai buscar na origem da Lei algo que se aproxime do
direito da mulher.
Mas, ao ler atentamente os versos, é evidente
que o Mestre traz à tona a discussão que exige solução urgente: a mulher é
livre e ambos devem se respeitar procurando o caminho da paz, apesar das leis
humanas. Isso é notório na última frase “E
o homem que casar com ela também cometerá adultério”. Esta sentença
escancara o sistema patriarcalista-machista. Jesus mostra que a Lei não é
perfeita. Ela torna todos os homens arrolados a qualquer situação de adultério.
É inescapável. Quer dizer, Jesus informa que, no contexto da Lei, bem ao
contrário do que pensam e dizem os homens, a mulher é vítima e não a culpada,
principalmente pelo fato de a responsabilidade contratual ser do homem. Como a
relação contratual é entre homens, não é a mulher que “leva consigo a marca de
um adultério” e sim os contratantes. É a Lei... Jesus dá não apenas a
interpretação correta, mas, mostra como é duro o coração das pessoas que
preferem a frieza da Lei ao invés de refletir o amor gratuito de Deus nos
relacionamentos livres de contratos e punições – que poderiam ser repletos de
respeito, alegria e liberdade. Um relacionamento sem ônus, sem danos.
Felizes
as pessoas humildes
v.33-37
Talvez haja uma possibilidade de jurar...
“Certa vez,
próximo ao meu trabalho, andando na calçada se aproxima um andarilho simpático
em minha direção e logo vai dizendo: com
licença, eu junto latinhas, mas eu dormi e levaram as latinhas que eu juntei.
Eu prestei atenção e já estava entendendo que ele iria me pedir dinheiro
(julguei, ainda, que ele estava alcoolizado). Pois ele continuou: você num teria alguma moedinha pra inteirar
meu almoço? Eu disse a ele que infelizmente eu não tinha. Ele disparou
muito bem-humorado: tem problema não. Eu
juro pra você ‘daqui pra trás não bebo mais!’. Demorei alguns segundos para
me dar conta do juramento do andarilho. Enquanto ele seguia na outra direção,
me pus a rir sozinho ao melhor estilo rachei
o bico!”
Nós temos o péssimo e perigoso hábito de
jurar ou fazer promessas. A instrução de Jesus de não jurar de jeito nenhum é em razão de que apenas Deus pode
garantir 100% que vai cumprir uma promessa. Quando nos comprometemos com uma
promessa, como podemos garantir que vamos cumpri-la? Quem jura que vai parar de
beber, pode se deparar imediatamente com a tentação de uma pinga ou apenas um
copo de cerveja no boteco da esquina ou até mesmo em família, e o juramento é
quebrado em apenas um gole. Quem diz “eu
juro por Deus que vou mudar” e que não vai mais bater na
namorada/companheira/esposa, comete um violento erro. É melhor reconhecer sua
fraqueza, sua incapacidade. Tem mais sentido dizer “eu quero respeitar você e parar de ser violento” como um “sim”
honesto, que jurar e dar voz ao Maligno.
A humilde-honestidade de um homem o aproxima
da sororidade feminina, a qual reivindica respeito, nada mais, nada menos. Não
é atoa que Jesus inicia o sermão do monte contrariando a felicidade que o mundo
acredita ser ideal, verdadeira.
Depois de um mergulho profundo, o que
encontramos na superfície?
CONCLUSÃO
A felicidade só faz morada onde a fidelidade
a Deus não está quebrada.
O machismo estrutural (disfarçado, oculto) atravessa
boa parte do conteúdo do evangelho de Mt 5.21-37. E essa realidade conjuntural
está comprovada, pois Jesus deixa completamente nu o patriarcado presente na
Lei pensada e consolidada pelos homens a fim de garantir o controle dos corpos
das mulheres (e dos mais fracos na teia social).
A sociedade contemporânea ainda reproduz esse
modelo patriarcal, porém, o controle das mentes femininas nunca foi pleno, pois
elas, com sororidade compreendida/incentivada por Jesus, marcham em revolução.
Cada homem precisa despatriarcalizar-se para
viver uma relação fraterna junto às mulheres, que não pretendem um matriarcado,
pois se inspiram no amor de Deus (imerecido e gratuito) revelado em Jesus
Cristo, aquele que estimula e incute respeito mútuo e permanente.
A sororidade feminina é sinal do Reino de
Deus. É ferramenta fundamental na transformação da sociedade misógina. A cada
vez que a sociedade, especialmente os homens, para, ao menos para ouvir as
mulheres, o Espírito Santo de Deus sonda todas as pessoas.
Que sejamos humildes como Jesus a fim de por
abaixo o patriarcalismo simbólico-estrutural. Quem se abre para as Boas Novas
que as mulheres em sororidade anunciam, é certamente feliz!
[1]
Conferència de Marcela Lagarde y De los Ríos: 'Feminisme i Sororitat' (María
Marcela Lagarde y de los Ríos palestra sobre “Feminismo e Sororidade”).
Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=6a2GAjfT9Fk&t=3549s>.
[2] Tanto
o ato ou efeito de emergir quanto uma situação grave, perigosa, crítica.