quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Aitsùgna



Invertida para ser convertida.


Nossas angústias tiraram férias; o problema é se nós estivermos de férias também.
Quando as malas e angústias fazem turismo passeando na mais próxima cidade da nossa vida, é por que não se afastaram completamente. Seria melhor que não tirassem férias, mas que fossem demitidas. Angústia é uma persona não grata! O problema é que até para angústias, parece haver um tipo de aviso prévio, rescisões contratuais e nossas outras burocracias complexas.
A angústia é essa máscara não convidada, mas intrometida, capaz de ficar curiosamente entre nossas externalidades e internalidades. É como se no teatro o mascarado fosse o contrarregras, que abre a cortina para si e a fecha para os atores.
Ofuscando a personalidade ou dando a ela um exagero – aproveitado somente em dramas da comédia ou em casos de família –, a angústia vai desenhando as caras mais deformadas no rosto da gente. Tente sorrir, e sai algo meio envergado, envergonhado, troncho. Não queira chorar, e o sorriso sai quase melecado: com duas pequenas cascatas que se gotificam como lágrimas que fingem não ter saído dos olhos, auxiliadas pela tentativa de represar de nossos dedos.
Dificilmente algum entre nós humanos vai, diante de um círculo, pintar todo o lado de fora e deixar sem preencher a parte de dentro. Para alguns é atormentador, absurdo não preencher o espaço vazio delineado, cercado e definido como tal. Angustiante. Estamos condicionados – identificados com prisões – a limites e às impossibilidades.
Mas sabemos como são esses decotes. Porém esses desenhos, para muitos que cresceram achando obrigação preencher espaços vazios, abotoar o armário de cima a baixo, para que nada lá de dentro possa sair e se expressar, é menos um convite e mais um limite. Mostrar os ombros pode não ser a “cura” da angustia, mas ajuda mulheres e homens respirarem. Dá espaço, distanciando o corte do pescoço, afasta o sufoco e permite vestir coisas leves. Do mesmo modo, os pés rejeitam meias depois de cumprirem a obrigação dos calçados fechados que encaram calçadas desconhecidas esburacadas – e para tentar disfarçar os encalços, todo mundo decide por ver novela com os pés pelados, futebol com eles descalços: descanso para sandálias, meias e outro percalços.
As regras não nos encorajam conhecer as margens (ou sim – são para transgredir?), os contornos, e nos afastam do todo, ao qual pertenceu aquele recorte. O que havia em volta? Esse vazio desconhecido, que não nos arriscamos a preencher, descobrir, investigar e experimentar, é sempre inalcançável, se preferirmos sempre o sufoco de preencher o suposto vazio interno.
Se esvaziar. Preencher o mundo ao redor. Levar a angústia para encarar a vida lá fora, ver a realidade – perceber que tudo é maior. Quantos espaços podemos preencher, se invertermos? Ao invés de completar nosso próprio gabarito das questões sem múltipla escolha que chutamos – preenchendo o mesmo quadradinho, completamente, sem vazar um só risco –, inverter a angústia! Vá a outras perguntas, questões mais amplas para as quais você é a resposta.
Se a angustia toma lugar no nosso “vazio” é porque não nos esvaziamos. A angústia não pode ser parte central de nosso desenho. Com decisão, a angústia vai pedir demissão ou será demitida por justa causa. Nada de afastamento temporário nem férias forçadas. É que a angústia é improdutiva se o vínculo com ela se estende, e esse perfil não atende à visão de futuro do empreendimento de vida que cada um de nós é.
O desemprego da angustia cria novas vagas para trabalhar conosco. Anuncie que há vagas para alegria, coragem e confiança, e ideias novas e vontades e realizações. É você quem converte os vazios. É importante trabalhar em parcerias, você e outras vidas podem criar cooperativas, dessa forma podem compartilhar funcionárias como a paciência, a compaixão, a solidariedade e a estima – esta última é a que mais buscamos, e a que julgamos mais rara e, por confiarmos pouco nela, sempre a vemos como baixinha, assim a queremos na alta gerência.
Para converter a angústia nessas funções boas: a amizade e principalmente os projetos de vida!
Se se inverter a angústia, já dá até pra rir dela: “aitsùgna”! Uma parada meio oriental, africana, sei lá. Finge que é o que você quiser, desde que seja pelo menos uma piada sem graça, sem começo nem fim, meio que “era isso a piada?”, mas é bom dar uma risada da angústia invertida! Converta ela em risos!
Assim, a aitsùgna vai ficando ultrapassada, mal dando para lê-la pelo retrovisor (não ria de “aicnâlubma”, a ela damos passagem, pois ajuda salvar de coisas ainda mais difíceis de se ler). Pelos poderes de mudar as coisas, invertê-las e propor conversões, é que superamos os sentimentos ingratos.
Devemos saber diferenciar angústia de aflição. Muito embora o poeta Antonio Hélio, em seu poema AITSUGNA, expresse “E grito no eco do meu próprio grito” como angústia, essa sensação, esse estado de humor vem a ser nosso anúncio do futuro. Demitir a angustia somente é possível quando a ansiedade alterna para energia de propulsão para escolhas se fazendo, decisões e projetos que vão adiante. A aflição não promove o que a angústia dá lugar. Preocupação, agonia e sofrimento intenso são os fortes traços da aflição. Sim, angústia por estar aflito(a): falta de humor resultado de preocupações que nos fazem sofrer. Já com uma pequena intercessão, a coisa chata pode inverter-se em aitsùgna: conversão de perguntas que querem superar as dúvidas sufocadas – sem dívidas, surgem as melhores perguntas.
Agradeça à angústia pelo curto período e por ter reservado lugar aos bons sentimentos futuros que já começam a ser construídos, sem culpa, que ocupam preenchendo nossos lugares escolhidos, tanto ao centro quanto para além das bordas de nossa existência: podemos conhecer bem mais de nós mesmos se, desangustiados, dermos mais passos para fora de nós mesmos, dando novos e melhores significados para aitsùgna – este inverso convertido em coragem, sossego e segurança de que o caminho escolhido é o melhor e mais certo até a próxima angústia!
Aitsùgna é largueza e alívio, isto é, cria espaços não vazios preparados para novos desafios!

Por Pedro Lísias

Antropocultura: cultive queridos



A gente não sabe dividir por que a gente não planta.
é verdade, temos apenas uma semente na mão, não há como dividi-la.
Mas, e se plantarmos? Se cuidarmos dessa semente com zelo e cultivá-la com amor?
também não podemos dividir as pessoas, pois assim morrem.
Precisamos “cultivar humanos”!


Empurrando a realidade: uma geração que acha que vai mudar as coisas com um clique. Desqueremos uns aos outros e não fazemos ideia do que fazer com uma semente, a não ser mantê-la seca em nossa lógica individual guardiã da desigualdade.
Muitos confundem experimentar com saber – quando saber é atualmente muito mais recorrer a recursos “wikissapienciais”, apelando para “diz a internet”, algo do tipo “melhor resposta escolhida pelo autor da pergunta”, e só.
Para a sociedade que sofre internet como hemorragia generalizada, Deus sabe de todas as cosias e o Google é fonte de tudo experimentado. Como se, ao saber a respeito daquilo experienciado, estivéssemos absorvendo as experiências, e agora afirmamos ser donos delas (favorecendo consensualizar em grupos, como algo vivenciado de fato e em comum).
Assim as experiências de Deus se resumem a downloads de aplicativos místicos, cujo processo de instalação ignora o poder de permissão do administrador, e logo se inicia: processando unção do fogo santo à 7% ... 20% ... 37% ... “espírito instalado com sucesso” (fim da experiência: deseja sair* ou concluir?). O problema é que sabemos que ao baixarmos arquivos misteriosos podemos estar abrindo as portas para maliciosos executáveis – malware. *Inevitavelmente uma barra de tarefas já lhe foi instalada.
Acha-se estar com a alma angustiada, quando o sangue e tudo que é de fato vida e viver, empobrecem-se por não terem contato com Deus, experimentando-o; mas o corpo vai espiritualizando-se e espremendo-se num longo corredor, ora são gritos, quando não são mãos que recriam a fantasia do desespero dos desesperados que creem abençoar uns aos outros. Quem está desesperado aí? Aviso: as portas são dúvidas!
Estamos escorregando em óleo quente? Ungido no forno das casas religiosas históricas, que se omitem, dando as costas para a multicultura que tem a semente na mão e não sabe onde nem como plantá-la – talvez nem para que serve.
Ser sal grosso e farol xenon faz o contrário do que anuncia a Boa Nova: machuca, salga de mais, ofusca e cega. As direções opostas dos cristianismos colidem com força ao ponto de dividirem paredes, infelizmente entre elas: a semente na mão.
E a pessoa, gente humana? Eles e Elas estão fazendo papel de tijolo: paredes de religião que se erguem administrativamente sem qualquer cuidado pastoral, ou janelas que ao menos deem sentido à liberdade nas promessas de nossas Bíblias fechadas que ainda achamos que estão nas mãos de Abraão: ambas ilusão.
Continua seca. A semente descuidada tem como destino ser plantada.
Estamos divididos porque não sabemos dividir. Morremos por insistir em dividir o indivisível. Brigas acontecem quando se está junto não querendo estar; a paz não é ser junto sem querer. Então, o que tem a ver: a semente e saber dividir, com espiritualidade?
Não é simples. Mas é simplesmente plantar.
Não podemos dividir uma semente, pois assim ela se acaba, não servirá. Porém, experimentando Deus, o dono da plantação, podemos até escolher a terra (o melhor é conhecer a escolhida pelo dono, nosso Companheiro, Parceiro e Amigo), plantar a semente e cuidar dela, para que, tendo crescido e amadurecido seja dividida sem morrer. Saber dividir não se faz com um clique, não é uma resposta qualquer dada pela internet ou pelo fórum dos “acho que sim, pode ser que não, mas o mais certo é que talvez”...
Saber dividir é experimentar Deus ao cuidar da semente que partilha amor, do plantio à colheita. É dar oportunidade de a semente gerar novas sementes para que outros, aprendendo a esperar em Deus, vão cuidar também: cultivando queridos e queridas. Uma ceara comunitária que não depende de irrigações fantásticas nem de apelos emocionais, pois os rios de bênçãos são antes alimentados por córregozinhos de carinho e cuidado. Tendo ainda, junto ao dono da plantação, ido à nascente, aquela fonte que não para nunca de minar, pois está protegida pela ação trinitária que a cerca fielmente de graça – e o Verbo se fez carne e habita entre nós (cf. Jo 1.14).
Borramos os desenhos das crianças que desenhavam sementes, plantas, flores, frutífera plantação. Demos a elas canções de pisar, inimigos para ninar, e estamos bem achando que isso é uma semente de esperança. Preferimos ensinar uma criança a plantar ou é mais fácil ligar a televisão e deixá-las ver uma galinha cantar?
Pedagogicamente... Petulância nossa achar que estamos fazendo muito bem feito. Será que estamos descobrindo que somos pedantes? “Que ou o que se exprime exibindo conhecimentos que não possui” (Dicio. Houaiss). Não juramos em nome de Deus. Temos humildade que transborda, assim nem precisamos dizer que somos humildes, mas para não parecermos egoístas: “tá amarrado no sangue de Jesus”.
Rede horrível de doutrinação. Espiritualidade não se confina numa explosão momentânea, não se trata de se empenhar em fazer a manutenção de perseguir a felicidade ou, se não sentir novamente um arrepio, “tá frio da presença do Senhor”. Espiritualidade não é um produto ou um círculo que riscamos no chão para dentro dele nos contermos fingindo não haver aí solidão. Espiritualidade não uma corrente de oração para espantar espanto. Nem é espiritualidade evitar se defrontar com tudo que não é espiritualidade e que está diante de nós. Espiritualidade não é um território conquistado, nele bandeira fincada, e uma barraca armada para receber o Espírito.
Espiritualidade é muito mais uma massa de bolo da receita que sempre melhoramos, trocando ingredientes, sem mudar o essencial. É experimentar sentindo cheiro, consistência, imaginando um pouco o sabor que nunca é totalmente o mesmo. Tanto é que não se faz bolo de cenoura disfarçando com abóbora dada semelhança da cor. Talvez se substitua o trigo, mas algo deve dar estrutura e liga. Para os mais lights corta o açúcar – se bem que o adocicado da cenoura sugere um experimentar de Deus que exige mais sensibilidade ao paladar (às vezes tão difícil de agradar).
Por isso espiritualidade é encontro. Ingredientes que se encontram. Um bolo sozinho é só um bolo; dividido, é cultivo humano: partilha. É natural fazer sozinho um bolo. Comê-lo sozinho não é espiritualidade, pois é como a semente que não foi plantada – sem oportunidade de frutificar e servir ao cultivo de queridos, frutos que geram frutos. Um bolo sozinho é individualismo e depressão; partilhado é alegria (divida um bolo de caçarola ao meio e terá dois sorrisos).
Espiritualidade: saber dividir a semente sem dividi-la. Estar com Deus sozinho quando estiver sozinho – pois não podemos dividir as pessoas, pois assim morrem. Quando estamos juntos cultivados com Deus, por não podermos nos dividir, dividimos o que temos e o que experimentamos de Deus quando estávamos fisicamente sozinhos ou num momento de confissão. Qualquer tentativa de divisão, seja em alma, corpo e espírito, é que estamos admitindo a fissão: um desejo indesejável, passional, destrutivo, irracional, impaciente, inconsequente...
Espiritualidade é construir com a criança um espírito superior, é o não sem que o proibir vire impossibilidade: morte da diversão segura pela alegria. Sim um sim para incentivar alternativas para a vida melhor, diálogo com bom trato, tato e estorinhas inventadas que imitam a vida melhor – essa semente de esperança que é a própria esperança! É um ir lá ver e experimentar ainda ouvindo: tá frio, tá morno, quase, agora tá ficando quente... achou! Se há um muro, é possível dar a volta sem se machucar? Assim se alcança a bola que caiu do lado de lá.
Espiritualidade é descoberta, e isso as crianças nos ensinam aprendendo conosco limites e acessos, estar junto sem sequestro, construindo um mapa-múndi de tudo que não se sabe, mas se quer descobrir sem invadir os mais convidativos jardins e suas janelas no alto de pé de mangas, pitangas e outras travessuras de crianças – quem não almeja um pequeno armazém para estocar coisas que nos interessam no chão? Moedas antigas, objetos quase mais curiosos que nós, pedaços de fio, barbante de telefone e caixas de papelão. E o que são travessuras? São os planos de criança em conquistar a realização de sonhos, brincadeiras, conversas com bichinhos do mato, com liberdade para ir traindo, aos poucos, sua ingenuidade sem cortar o coração, na tentativa constante de criar a condição de uma nova e preciosa amizade.
“E Deus viu tudo quanto havia feito, e era muito bom. Houve uma tarde e uma manhã: o sexto dia.” (Gn 2.31) Veio o fim de semana, e novamente assentados e levantados, liturgicamente incomodados, faríamos a mesma pergunta que o curioso Moisés: “Qual é o seu nome?” E o fórum “melhor resposta escolhida pelo Autor da Vida” responde: “EU SOU O QUE SOU, SEREI O QUE SEREI, VOU SER O QUE VOU SER” (Êx 3. 14).
A semente indivisível partilhável está em nossa liberdade, cujas mãos são extensão do coração e do intelecto, interligados pela aliança sangue-suor, nossa eterna esperança de plantar.

Se toque, não clique, abrace e descubra!
Criança madura, esperança, travessura!
Sotaque de verso, espiritualidade sem culpa!
Semente, figura, verdade futura!

Por Pedro Lísias