Invertida para ser convertida.
Nossas
angústias tiraram férias; o problema é se nós estivermos de férias também.
Quando as
malas e angústias fazem turismo passeando na mais próxima cidade da nossa vida,
é por que não se afastaram completamente. Seria melhor que não tirassem férias,
mas que fossem demitidas. Angústia é uma persona não grata! O problema é que
até para angústias, parece haver um tipo de aviso prévio, rescisões contratuais
e nossas outras burocracias complexas.
A angústia
é essa máscara não convidada, mas intrometida, capaz de ficar curiosamente
entre nossas externalidades e internalidades. É como se no teatro o mascarado
fosse o contrarregras, que abre a cortina para si e a fecha para os atores.
Ofuscando
a personalidade ou dando a ela um exagero – aproveitado somente em dramas da
comédia ou em casos de família –, a angústia vai desenhando as caras mais
deformadas no rosto da gente. Tente sorrir, e sai algo meio envergado,
envergonhado, troncho. Não queira chorar, e o sorriso sai quase melecado: com
duas pequenas cascatas que se gotificam como lágrimas que fingem não ter saído
dos olhos, auxiliadas pela tentativa de represar de nossos dedos.
Dificilmente
algum entre nós humanos vai, diante de um círculo, pintar todo o lado de fora e
deixar sem preencher a parte de dentro. Para alguns é atormentador, absurdo não
preencher o espaço vazio delineado, cercado e definido como tal. Angustiante.
Estamos condicionados – identificados com prisões – a limites e às
impossibilidades.
Mas
sabemos como são esses decotes. Porém esses desenhos, para muitos que cresceram
achando obrigação preencher espaços vazios, abotoar o armário de cima a baixo,
para que nada lá de dentro possa sair e se expressar, é menos um convite e mais
um limite. Mostrar os ombros pode não ser a “cura” da angustia, mas ajuda mulheres
e homens respirarem. Dá espaço, distanciando o corte do pescoço, afasta o
sufoco e permite vestir coisas leves. Do mesmo modo, os pés rejeitam meias
depois de cumprirem a obrigação dos calçados fechados que encaram calçadas
desconhecidas esburacadas – e para tentar disfarçar os encalços, todo mundo
decide por ver novela com os pés pelados, futebol com eles descalços: descanso
para sandálias, meias e outro percalços.
As regras
não nos encorajam conhecer as margens (ou sim – são para transgredir?), os
contornos, e nos afastam do todo, ao qual pertenceu aquele recorte. O que havia
em volta? Esse vazio desconhecido, que não nos arriscamos a preencher,
descobrir, investigar e experimentar, é sempre inalcançável, se preferirmos
sempre o sufoco de preencher o suposto vazio interno.
Se
esvaziar. Preencher o mundo ao redor. Levar a angústia para encarar a vida lá
fora, ver a realidade – perceber que tudo é maior. Quantos espaços podemos
preencher, se invertermos? Ao invés de completar nosso próprio gabarito das
questões sem múltipla escolha que chutamos – preenchendo o mesmo quadradinho,
completamente, sem vazar um só risco –, inverter a angústia! Vá a outras
perguntas, questões mais amplas para as quais você é a resposta.
Se a
angustia toma lugar no nosso “vazio” é porque não nos esvaziamos. A angústia
não pode ser parte central de nosso desenho. Com decisão, a angústia vai pedir
demissão ou será demitida por justa causa. Nada de afastamento temporário nem
férias forçadas. É que a angústia é improdutiva se o vínculo com ela se
estende, e esse perfil não atende à visão de futuro do empreendimento de vida
que cada um de nós é.
O
desemprego da angustia cria novas vagas para trabalhar conosco. Anuncie que há
vagas para alegria, coragem e confiança, e ideias novas e vontades e
realizações. É você quem converte os vazios. É importante trabalhar em
parcerias, você e outras vidas podem criar cooperativas, dessa forma podem
compartilhar funcionárias como a paciência, a compaixão, a solidariedade e a
estima – esta última é a que mais buscamos, e a que julgamos mais rara e, por
confiarmos pouco nela, sempre a vemos como baixinha, assim a queremos na alta
gerência.
Para
converter a angústia nessas funções boas: a amizade e principalmente os
projetos de vida!
Se se
inverter a angústia, já dá até pra rir dela: “aitsùgna”! Uma parada meio
oriental, africana, sei lá. Finge que é o que você quiser, desde que seja pelo
menos uma piada sem graça, sem começo nem fim, meio que “era isso a piada?”,
mas é bom dar uma risada da angústia invertida! Converta ela em risos!
Assim, a aitsùgna
vai ficando ultrapassada, mal dando para lê-la pelo retrovisor (não ria de “aicnâlubma”,
a ela damos passagem, pois ajuda salvar de coisas ainda mais difíceis de se ler).
Pelos poderes de mudar as coisas, invertê-las e propor conversões, é que
superamos os sentimentos ingratos.
Devemos saber diferenciar angústia
de aflição. Muito embora o poeta Antonio Hélio, em seu poema AITSUGNA, expresse
“E grito no eco do meu próprio grito” como angústia, essa sensação, esse estado
de humor vem a ser nosso anúncio do futuro. Demitir a angustia somente é
possível quando a ansiedade alterna para energia de propulsão para escolhas se
fazendo, decisões e projetos que vão adiante. A aflição não promove o que a
angústia dá lugar. Preocupação, agonia e sofrimento intenso são os fortes
traços da aflição. Sim, angústia por estar aflito(a): falta de humor resultado
de preocupações que nos fazem sofrer. Já com uma pequena intercessão, a coisa
chata pode inverter-se em aitsùgna: conversão de perguntas que querem superar
as dúvidas sufocadas – sem dívidas, surgem as melhores perguntas.
Agradeça à angústia pelo curto
período e por ter reservado lugar aos bons sentimentos futuros que já começam a
ser construídos, sem culpa, que ocupam preenchendo nossos lugares escolhidos,
tanto ao centro quanto para além das bordas de nossa existência: podemos
conhecer bem mais de nós mesmos se, desangustiados, dermos mais passos para
fora de nós mesmos, dando novos e melhores significados para aitsùgna – este
inverso convertido em coragem, sossego e segurança de que o caminho escolhido é
o melhor e mais certo até a próxima angústia!
Aitsùgna é largueza e alívio, isto
é, cria espaços não vazios preparados para novos desafios!
Por Pedro Lísias