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quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

-Av. Transformação-

Areia
Aveia
A velha
A vela
Ávida
Avenida
A vida
Árvore
Avô lê
Ar vou ver
Cambiou
Volver
A travessa
A trave
Atrevida
Arte lida
Atravessa
A trapaça
Até passa
Ah que graça
Assobiou
Assombrou
Amassou
Amaciou
Transformou
Retroceder
Amanheceu
A esquina
À esquerda
A rua
A ré
Av. Transformação

-toddynho meu-

canudos
cabanas
menos choupanas

todinho meu

sódios
sádicos
mais códigos

toddynho meu

furo
tubo
em caixa

todinho meu

desenho
choco
sorriso falso

toddynho meu

-por pouco, caso da felicidade-

Negligência é uma agência.
Agência da culpa, do medo, da falta de despojo.
Poupança de felicidade - sem possibilidade de resgate.

É uma nudez avergonhada, quando felicidade é nudez sem-vergonha!

É sorriso, a felicidade, sem hesitação.

Sorriso gordo, espaçoso, ainda que não tome o espaço de ninguém. Muito pelo contrário.
O sorriso da felicidade é acolhedor, contagiante e benfeitor.

Erro da gente, negligente com a felicidade. Nos caem as penas, a compaixão e a alegria.
Negligência, porque não? Felicidade, ainda não!

Enredam-se, negligenciando-se, disfarçando-se, felicitando-se. Um embrulho sem sorriso.
Sem presenteado. Tipo céu prateado, de brisa abafada rajada de frio.







-elasticidade-

vai e vem - é terno
saia, é velcro e vaia
é eco, do teto chão
são vetos - vem e vão

rua longa, caminho curto
listras pretribrancas
pavimento, sinal em movimento
coletivo, espaço que cutuco

suave e forte - o salto
lajedo do passeio funcional
circuito de brinquedo ilegal
pula e desvia - foge do buraco

ponta e ponto - ponto a ponta
cidade cruzada, palavra parada
garrafa, pensamento, que evento!
de um lado alado outro lado

pega e solta - telefone
fio que estica diálogo
mudo de ouvido, colado
assunto encerrado - fala e atende

resumo de um dia tracejado
passa, demarcado passo-a-passo
cidade elástica - fim e começo
até eternacidade

-cheiro-

cheiro pesado
cheiro profundo
cheiro

-sorriso de mel-

os olhos amadeirados
como uma estrela carente
risca o meu céu sorrindo

linda alegria tímida
dum jeito de falar sorridente
seu mistério que me abraça tímido

dedinhos abraçados
os punhos juntos, descalços
e um luar manso e intenso no olhar

ela não se contém
quisera dividir comigo
quase se sente mais perto e além

uma linha brilhante lentamente desliza
faz na boca um brilho horizonte
alegra os lábios que descobrem os dentes

cadente mel que me afaga
doce constelação que me faltava
sorriso de mel que me beijava

-oráculo da revolta-

Eu voltei para onde fui desde que cheguei.
Assim fico onde estive pelo tempo que for.
Não há retorno para o destino, desista de ir.
O caminho que vem nunca mais foi o mesmo.
O início do caminho final finda-se pelo caminho.
Narro os passos a se fazer, os feitos, narrados.
O próximo passo, dado o último, é o primeiro.
Assim dizem as esquinas: dobrou no lugar errado.
O correto é o contrário, e não há volta.
Oráculo da revolta.

-resquícios, flagelos e migalhas-

os esquecidos no vento
assumem cores divergentes
seguidos além alento
rumo que muda com o tempo

não se nomeiam
nem se deixam atrair
não se agacham
nem nos fazem rir

briga de bolhas secas
que espreitavam duma garrafa sair
corte de foice, meia bola
desejando a espuma iludir

as gotas cunhadas
correndo subindo sedentas
explodem no topo irmanadas
nenhuma volta, coitadas

retornáveis
por elas tantas passaram
pocando até os copos vazios
garrafas com calafrios

bolhas vidradas
líquidas também
falhas de fabrico
as garrafas resfriadas

tão leves se tornam pesadas
as areias de que se fazem garrafas

-doces olhos-

um puro olhar
fita açucarado
verde-mar
sem estar apaixonado

desejos doces
rojos e rezas
vestidos, belas
religiosas regras

olho os doces
sem complicar
doces, os olhos
sem alcançar

alinhado mirar
arco e flecha
topo eliminar
linha complexa

assim se origina o fim
por onde começa
quero, estou afim
mas, agora, sem pressa

-texterrado-

testamento
seria, (ou então),
uma boa bolha
que, como, sobem

croquetão
receitaria, (ou não),
outro vinho viu
como, tal, bebem

feijão
enterraria, (algodão),
qual caldo cai
mais, ao, dente

torrado
escreveria, (em vão),
meio tóxico tórrido
café, passado, texterrado

-vexame de abelhas-

as loucas
tão poucas
vexame de abelhas

-toma cerveja não, nem migalha de pão-

pode engasgar, bêbada
bebe de vagar, gaga!
baba pode pingar
pede mais uma lá!

torradas sem torrar
pedaço de pão:
barriga
bundinha
que nome se dá ao lado da contramão?
beijo de pão em pão - e poucos têm as tais nádegas!

só pão,
pode ser,
veja bem:
nunca sobra.

sempre sobra:
saideira e migalha de pão

-nossas mãos-

na ponta, os dedos
apertam, as folhas
mansa, em pinça
apontam, as coisas

não tremem,
é um jeito manso
apenas, cautelosas
em sua suave firmeza

não se levantam alto,
se estendem na graça

como é doce o sorriso das nossas mãos

uma curva da linha moraes
palmas, abaulados artísticos ribeiros
na forma carinhosa da silva calma
à mesa, altivas rodrigues, mãos reais

-linha que cresce-

nesta linha que cresce
iluminadas, as estrelas que te dão lugar
e junto vem e aparece
o raiar daquele dia que se ilumina devagar

a saudade se estende
como o abraço, longe está
espaço do lar, sente-se
embora nada se entenda por lá

se namoram minhas lembranças
tentando envolver novidades
se recebem minhas vontades
desejos de tantas andanças

brilho fora do foco
só se vê difusa em redor
de uma meia coroa
sustenido de uma nota dó

a esperança distante
que princesa meu coração
m'nhalma garante
superar a solidão

toda manhã espero
ao ver a linha que cresce
luz do sol que cedo aparece
iluminar meu coração

-o seu sorriso-

quem me dera ter assim
esse alegre modelo de boca
que se estica sutilmente
os dias todos saindo de mim

que desenho carinhoso
de linhas manhosas
divertido do olhar
para os lábios clarear

-esquecido por ema-

era um samba distante
sentimento longo e curto
de momento instantâneo, distinto
se arrastou contornando um monte

por ela, a história
antiga emancipou
e mais, tudo solapou,
antes de terminar

era apenas um samba tentado
espalhado agora
sem pressa
triste composto apagado

de lá pra cá
um título trocado
beleza assim
tudo esquecido por ema

lembrando avestruz... poema?
emu não pode faltar, confusão com casuar
samba com kiwi, não voa, não é problema
é só descascar!

-caminhus-

nós não somos fáceis
para nós mesmos
não somos faces
para sentir medo

parques tombados
leve antagonismo
porquês formados
pesado protagonismo

trama desdém
drama removido
trauma querido
calma também

alinhados caminhus
redeterminados cobrir
raio silhueto de cobre
bolha luz retesa rubi

a flecha que rampa
íngreme invisível
sem vigas a congressar
uma via solene côncava

que ainda tem seiva
verde musgos orlam estes caminhus
galho que não salva
árvores grandes e distantes ninhos

um alto céu
convexo meio anel
de noite vaga nuvem
completa manta revel

trilhas e bainhas
costurando planos
fundo azul noturno
orvalhos abotoados

adormecem aportados
para chorar de manhã
se deixando levar
não rolam, rumam, apertados

brilho cristal molhado
as gotas sem sal
iluminadas, primeiro, tal
feixe morno direcionado

úmidos caminhus reaparecem
passarelas à pressa
unidos se aquecem
ao largo, um dilúvio que seca

não fossem gotas
para um mundo pequeno
algumas forças
de um imenso sereno

alguns caminhus

-passar, para quem passar-

menina necessidade
ansiedade no sonho
ainda descompreendida
um abraço que proponho

apenas é você para quem é para quem você é

quer que passe com você
depois de amornar
rápido amanhecer
um café de namorar

além da porta, por fora
por onde desentram conhecidos
apenas, isto para intimidade
alinhando o corpo agora

a que escreve, uma mulher, um carinho literário

rascunho de carência serena
amando toda essa clarisse
fina como pele de cinema
uma curta luz que disse

forte no desejo, empenhada no sorriso e meiga na proximidade

há poucas calmas
ardendo com apetite
quantas delas há
almas suas, cama petite

vibram a vida, numa frequência semelhante, e a faísca

o atrito quente
das páginas e livros
despreocupa a gente
entregue aos ouvidos

e abre espaço, numa mesa separada, os que são deixados

servir apenas alguns sonhos
sensação inofensiva de prazer
para mediar os debates
deixando tudo acontecer

e o café e os livros e a cama, cada um com seu lençol branco

margeando vão
essas prosas nossas
na lei da atração

-sugerida sugestão-

indecisão
intensa intenção
pretensa
compensa

um gerundismo trolado
impelido apelidado
empolgado
não vai não

ia estar sugerindo
sugestão caindo ia
tropeção
vai não ia foi

voltando
rodopiando
girando
e retardando

joelhos brindando
doendo, rosnando
arriando, cotovelo direito
arriscando, esquerdo do avesso

olhos ora vesgos
em instantes estrábicos
confundindo-se, um fechado
abrindo outro, olhos semicerrados

falha no engano

-para escrever a noite é melhor-

para escrever a noite é melhor, pois tem menos gente usando as palavras
só se as palavras japonesas não forem brasileiras, francesas, acesas
só se a noite é mais fácil para não dizer que está com preguiça
só se uma noite escura for a tinta da escrita pura
só se for a melhor noite para escrever melhor à noite
só se for a melhor noite para escrever melhor a noite
se só a noite for melhor para escrever... é melhor guardar as palavras de dia
se só é melhor escrever à noite... é melhor que todos estejam dormindo de dia
se só escrever a noite é melhor... melhor é combinar com os japoneses
se só para escrever a noite é melhor... para à noite e escreve, caramba!